domingo, 16 de dezembro de 2012

Seja bom.


- Cosme, vem cá. Pega esse copo vazio pra sua vó, por favor.
- Senta aqui do lado e escuta uma coisa.

Observando com aqueles olhos bem abertos, o pequeno Cosme vê passo a passo sua vó vagarosamente buscar ao lado de sua cadeira de balanço uma garrafa de gin. Era engraçado como aquele trem que a vovó tomava tinha aparência de água, mas cheiro de gasolina.

- Todas histórias boas que você ouvir, vão trazer uma metáfora única da vida. Presta atenção.
Você tá prestando atenção?
- Tô sim, vó.

(Gole largo no gin)

- Escuta. É básico mas pouca gente entende. Existem dois lados pra tudo. Entende? Dois lados da moeda, dia e noite, bem e mal. O mundo é uma dicotomia.
- (Dicotomia?)
 - Você vai todos os dias dar de frente pro mal chamando pra fazer farra. Você vai fazer farra com ele, Cosme?

Cosme não sabia se era pra responder mesmo, ficou quieto apenas observando. Vovó continuou.

- Eu só quero ter certeza que você vai estar do lado certo na hora que o bicho pegar, entende? Isso é muito importante.

Vovó olhou pela janela, num ar muito distante. Deu o segundo gole no gin que arrematou a bebida do copo e finalizou.

- Seja bom, menino. Seja bom.





*escutando Carly Comando


sábado, 16 de abril de 2011

O testemunho do que não vi


A idéia de escrever muitas vezes parece ser um tiro no pé.

Digo isso pois quando penso em começar a extrair meus pensamentos, eles parecem não querer sair.

Se amarram, prendem. São como aqueles sonhos absurdos que me espantam quando acordo e que esqueço logo que levanto. Esqueço completamente. Perco qualquer lembrança de meus sonhos pela manhã.

"Como era mesmo?"

Certamente, meus pensamentos não pertencem ao papel, internet ou qualquer outro meio de perpetuá-los. São remendados, ora ou outra, através de diálogos. Mas não representam 0,1% do que deveriam.

Voláteis.

Agora mesmo, quando pensei em escrever sobre algo, esqueci ao ligar o computador.
Escrevendo sobre o fato de esquecer o que ia escrever, carimbo a metalinguagem de meus pensamentos neste blog de uma figa.

Estou em uma sala de quadros com a luz apagada.

É como se existisse uma ponte que separasse meus pensamentos de minha forma de expressá-los. Um turbilhão de idéias que precisam atravessar minha essência através de palavras.

As palavras, que seriam os alicerces desta ponte, são poucas.

O peso das idéias é tanto, que a ponte desmorona.


E eu fico com essa cara de bobo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011


Qualquer um, em determinado momento da vida, se sente pequeno.

Nao me refiro as crianças, ou aqueles que por qualquer motivo que seja, nao tenha crescido como outros.

Alguns exemplificam o que quero dizer com graos de areia em desertos, estrelas no céu, folhas em florestas. Metaforas.

Exemplificam com a idéia de sermos ínfimos perante o mar, o planeta, o universo ou a bendita casca de noz.

Limitados perante o infinito.

“400 bilhoes de estrelas...”, dizem.

A “pequenez” exposta em poemas, filmes, novelas é extensamente difundida por todas pessoas.

Em atos.

Em palavras.

Pensamentos.

Não alcançamos...não conseguimos.

Não tentamos.

Micropartículas ou não, me surpreendo com algumas coisas.

(Como poderia perceber a flor, se não olhasse, primeiramente, para o quadro por inteiro?)

(Como poderia não sentir prazer em mergulhar na água fresca calos e feridas se não tivesse caminhado descalço por longos caminhos insalubres, pavorosos?)

Vi, afogada no caos de uma cidade violentada pelo neogloboestrupialismo, grandeza.

Foram apenas segundos. Para centenas que ali passavam, inexistentes. Foram infinitos pra mim.

Eternos.

Olhares e sorrisos, diante da monstruosidade do mundo.

Sabe? Que brilho!

Rebatem quando podem, estes pequenos. Revidam.

Rebatem saindo da extensa e estúpida linha de produçao, tal qual a que pertencia Carlitos com suas chaves inglesas.

A grandeza da micropoeira do universo. A beleza de um quadro furta-cor visivel apenas para aqueles que se permitem ver. Aqueles que desfocam a vista para ver quatro dedos ao invés de dois, e perceberem a piada e a graça de tudo que é absurdo.

Não vou esquecer nunca e, espero que você possa sentir...

O prazer,

o calor,

a felicidade,

que senti quando vi sua grandeza de espirito.

Ela fez me sentir maior diante de tudo.

Grande.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Parênteses

Nunca me entreguei tanto em tamanha demonstraçao de minha essencia.

Minhas pernas bambearam, mas eu segui com olhar firme.

Estava representado. Pintado e mascarado. Único. Como uma impressao digital, ou a superficie de uma iris. A arte invade a pessoa de acordo com sua individualidade e sua propensão a entrega.

Muitos nunca tem a oportunidade de encontra-la.

Muitos a encontram, e se deixam desestimular pelos fatores externos.

Amor.

Fome.

Facebook.

A disciplina de um aluno de piano, ao confrontar a instabilidade e virtuosidade de um blues man com uma gaita sao assombrosas.

O aluno de piano se torna virtuoso quando passa a sentir a musica como o blues man.

Acredito nao haver outra forma de criar, senao vivenciando o que ja foi criado. Um diálogo verificando cada ponto que o compositor onipresente pincelou com sua alma.

Ja fui aluno de piano. Ja fui blues man. Ja fui cansado. Ja fui espuleta. Esfomeado. Apaixonado. Cantor, amigo. Inimigo. Jogador, malfeitor ou apenas namorado.

Filho, jardineiro. Professor, viajante. Paciente, atormentado, viciado, maltratado.

Hoje sou o que me fiz, o que fizeram e o que permiti fazerem.

Sou minhas risadas, gargalhadas afogadas em choros e hipocrisia.

Caimbras, espamos, la menores com setimas e nonas.

Sou minhas fotos, minhas notas, meus textos e meus trabalhos.

Sou meus nao-trabalhos.

Sou cafe, leite e suco. Sou o amor que sinto por ela.

Mordidas e tapas.

Um corpo apenas.

Para tantas almas.

Que sao também, assombrosamente, apenas uma.

Diante do espelho, vejo todos meus eus. Os que gosto, os que quero ser. Aqueles que nao sou. Os que fui e os que nego ser.

Os que procuro esquecer.

O que sou para minha família.

O de meus amigos.


O de minhas professoras.

Sou falso, verdadeiro. Sou indivíduo de uma forma comum e repetitiva.

Permaneço inerte nesse mundo que dinamifica milhares de vidas a cada segundo. E quando menos espero, estou vibrando e me retorcendo como uma corda de violino.

Me quebro, me rasgo. Me solto, vivo. Me sinto preso novamente, corro, sinto, Meu Deus!

Desligo o celular. Tiro a roupa, que calor.

"Nunca pensei que voce fosse assim".

Pois é.

domingo, 23 de maio de 2010

Tourette caipira




Bem sei o quanto este guardanapo digital alterou seu rumo no decorrer da empreitada.

Nascido de histórias sem pé nem cabeça, desenvolvido através de constatações nostálgicas de uma infância caipira, feliz e sacaneada constantemente pelos irmãos mais velhos, este ambiente e suas palavras se deixaram engolir por uma linearidade seca e entorpecida pela fumaça dos escapamentos.

Morando na capitar, incluí em meu vocabulário palavras como "valoragregado-paraísofiscal-correçãomonetária-juros-rodízio-metrô-trem-chuvaseguidadealagamentoecaos". Pouco a pouco percebi deixar de responder os corriqueiros - "Cê tá bão?" - por termos comuns como "Firme na paçoca", "pindaíba desgracenta" ou o simples "bão".

Talvez porque os "Cêtábãos" foram martelados diariamente por "Bomdias-tudobens-comovais".

Nesta terra se fala como se escreve, e a instabilidade e imprevisibilidade da palavra tendem a ser subjugadas.

Para infelicidade de muitos, esta realidade me causou uma certa incontinência verbal. Espasmos de termos inutilizados de meu passado caipira. São berros, involuntários, em momentos impróprios.

Chefe - "Bom dia, Matheus. Você terminou o relatório que eu pedi?"

"Bom dia LASQUÊÊêRA terminei e enviei para seu email hoje pela manhã, chefe. Caso tenha alguma dúvida AÔÔÔ TREEEM QUE PULA é só avisar.

Logicamente, fui levado ao médico após algumas confusões em reuniões e depois de ser expulso do cinema, quarta-feira passada.

Segundo o doutor, quando ponho ao mundo algum termo remanescente da terrinha através destes impulsos explosivos, devo tomar um remédio chamado "vergonha na cara".

Ele que VÁ CARPÍ NA LAMA.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Cotidiano VI


- Acho que é isso que nos diferencia.

- O quê, mulher?

- O que procuramos, objetivos de vida, sei lá...

- Ham...

- Sabe, eu tenho lido algumas coisas, conversado com algumas pessoas...

- Hm...

- Alguns grilos falantes dizem que quando o céu tá cinza é porque o chá de boldo virou farofa.

- Sei...

- Seu miserável! NUNCA escuta o que eu falo! acabei de falar um monte de MERDA para ver se você estava me ouvindo e, pra variar, você não estava.

- Exato. Agora me diz o que eu ia ganhar se eu ficasse te ouvindo o tempo inteiro, sua maluca.

domingo, 28 de março de 2010

Inconsequente, inconsequente, inconsequente.

Larte

A surpresa foi tanta, que a pobre maravilhosa estremeceu. Ficou imóvel, quase babou.

Fiquei ali parado, aguardando uma reação.

Trovejava.

Quase falei de novo. Esperei. Silêncio.

Ela olhou para o nada, pensou...

(...)

Ameacei dizer novamente.

Aquietei.

Só depois de algumas semanas, ela focou o olhar e, sem dizer nada, fechou a porta em minha cara.

Pelo menos falei.

Saí na rua e me deixei engolir pela chuva.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Invasivo, apreensivo, inconsequente

Estava ridiculamente encharcado por mais uma das tantas tempestades que maltratavam a cidade naquela época do ano. A cidade, nublada, já estava escura desde manhã.
Não liguei para avisar, simplesmente apareci.
Invasivo.

Ouvi os estalos do chão de madeira do outro lado da porta. Percebi ter parado de respirar por alguns segundos.
Apreensivo.

Quando a porta se abriu, vi a mulher mais bonita do mundo. Estava de pijama, surpresa com minha presença. Estava seca.

- O que você está fazendo aq...

- Precisava falar com você...me desculpe...a hora...

- Você está todo molhado...

- A chuva...

- Por que você não...

- Eu não poderia esperar até amanhã.

- O que aconteceu?

- Eu te amo.

Inconsequente.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cotidiano V

Já carpi terra e limpei jardim de praga. Plantei feijão em algodão e manjericão em vaso véio. Salsinha em copo d'água e girassol no terreno da minha rua.

Nunca tinha visto brotar flor no asfalto.

A mardita é bonita, mas fica na rua.

- Óia o carro!

Ufa....

quarta-feira, 28 de outubro de 2009