sábado, 27 de dezembro de 2008

O Caipira do espaço


Escrevi pouco nesse último trimestre, mas a infelicidade de não haver dividido os últimos acontecimentos com esse guardanapo digital não supera a felicidade de afirmar: estou vivo.

Desta vez não vou tão longe com histórias fantasiosas sobre castelos, bruxas e amoras. Considero isso um desrespeito ao leitor e por isso, peço desculpas.
Contarei, portanto, a verdade:

Fui interceptado por alienígenas paulistanos.

Me tiraram as havaianas, a pseudo-barba e riram de minhas roupas. Sob gargalhadas e ''orras meus'' sotacados, fui algemado por uma corrente de clipes e grampos.  

É preciso saber reconhecer quando a normalidade se desfez.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Mundanças Estruturais - Módulo I

Trocaram a parafuseta e apertaram o mirolete da carroça rumo a capitar.

Supostamente, não tinha a intenção de escrever até a próxima segunda-feira, quando entregarei o (espero) último trabalho acadêmico vinculado ao que tenho estudado (siq) nos últimos 4 anos. Mas tenho hoje um motivo muito importante para escrever: hoje, em rua próxima a de minha casa encontrei um cidadão gritando e babando a todos "Ribossoma Cruzi!Ribossoma Cruzi! Ribossoma Cruuuuuzi!!!!"
Fiquei intrigado. Este senhor logicamente havia descoberto algo muito importante e resolveu fazer o marketing ao estilo "Eureka!" de Arquimedes.
Segui até minha casa pensativo sobre meu tempo de cursinho pré-vestibular, tempo em que aprendi que o Trypanossoma Cruzi pode dançar a macarena em meu organismo até ele não aguentar mais. Tempo em que os ribossomos e o ácido desoxirribonucleico eram deveras importantes.
Enfim, ao chegar em meu humilde endereço, posteriormente ao nirvana pós-desvencilhamento de sapato e gravata, adentrei o oráculo do Dr. Wikipédia e perguntei o que diabos era Ribossoma Cruzi.

Nada.

Essa capital é meio estranha mesmo.

sábado, 8 de novembro de 2008


Há quatro anos tirei a sorte grande e ganhei um quilo de rapadura gratuita na feira.
Eis que acaba a rapadura.
E ganho um paralelepípedo.

Êita vida bandida.

sábado, 4 de outubro de 2008

Jornalismo invejável II- Uma verdade incoveniente



Local
Sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PRÊMIO NOBEL
Unesp terá encontro sobre meio ambiente

A Unesp-Franca abrigará no seu Salão Nobre, de 29 de setembro a 1º de outubro, o II Encontro Internacional Paulistano do Terceiro Setor (II INTERSET), que terá como tema O Ano Internacional do Planeta Terra e a Sociedade: a questão do Ecodesenvolvimento. Por meio de palestras, workshops e mesas-redondas, o evento trará informações e debates sobre sustentabilidade, mudanças climáticas, responsabilidade social e educação.
(...)
A palestra final será ministrada às 14 horas do dia 1º pelo Prof. Dr. Carlos Clemente Cerri (USP), especialista no estudo de mudanças climáticas, junto com Al Gore, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2007.
(Link da notícia aqui)

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Acontece que o prêmio Nobel da Paz 2007 não deu o ar da graça. Dizem as más línguas que ele estava na Austrália no dia.

Shit!

Vai ver ele nem sabia do evento e o jornal se equivocou, confundindo inocentemente o fato do evento utilizar seu DOCUMENTÁRIO - "An Inconvenient Truth (Uma Verdade Inconveniente)" e não contaria com sua presença.

Mas eu duvido que um jornal como o "Comércio da Franca" cometeria um erro desses.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Rumo ao mercado de trabalho



Ai, se pega no olho...que perigo.

sábado, 30 de agosto de 2008

Visitas do Reino Animal

As ruas do Brasil estão cheias de animais perdidos e carentes de atenção. Não sou lá um santo, mas sempre que posso, alimento um ou outro cachorro que me segue até em casa. Gato, não. Taí mais um trauma.
Enfim, dos cachorros, depois da desaparecida Madalena e do falecido Flecha-Negra (conhecido pelo resto da faculdade como Robinho, que Deus o tenha), minha predileta é a ainda sobrevivente Matilda, que mais parece uma flanelinha de posto de gasolina, daqueles desfiados e beges. Magricela, a Matilda sempre faz visitas com aquela cara de tonta, abanando o rabo pra ganhar um pedaço de mortadela, ossos de frango ou carne. Pão não. Pão ela cheira, lambe e cospe (esnobe desgraçada).

Pois bem, era ainda dia quando voltando da biblioteca (sic) observei em frente a minha humilde casa, estático e com ar de superioridade, um pombo bem do diferente.
Pensei ser um pombo pois como todos sabem, Franca do Imperador é também conhecida como a Veneza brasileira, onde a população de pombos é superior a de formigas, baratas e grilos - juntos. Felizes, os pombos curtem sua rotina na praça central se multiplicando por Progressão Geométrica e realizando escambo de hambúrgueres e churros inteiros de pobres crianças por piolhos e carrapatos. "É uma boa troca, pipoca é coisa de quem pensa pequeno", dizem.
Desta forma, preparei um idoso e vergonhoso "Xô!" para me livrar desta ave profana e entrar para continuar estudando (sic) tranquilamente em meu quarto.
Quando me aproximei da ave, finalmente percebi que não se tratava de uma das aves marginais do centro. Cinza, pequenina e gordinha, era inacreditavelmente uma codorna.
Cabe a mim me defender previamente dos injustos julgamentos de mentiroso, bêbado ou esquizofrênico. Era, certamente, uma codorna.
De olhar terno e acolhedor, a pobre gordinha havia pousado pacificamente sua existência defronte meu portão, e coube a mim naturalmente transformar meu desgostoso "Xô" em estalos de dedos e sorridentes "pssss... pssss... psssss...".

(Não, eu não moro em uma fazenda, roça ou chácara. Eu moro no centro de Franca, interior mágico do estado de São Paulo. Onde histórias estranhas acontecem com frequência).

Quase como uma empalhada-viva, a solitária codorninha manteve seu olhar curioso enquanto a levantava do chão. Entrei. Atravessei a casa relativamente feliz. Não haveria problema algum com um bicho de estimação como aquele. Poderíamos finalmente cuidar de um animal que não comesse e cagasse por quilo. Aliás, ela daria luz a ovos. Haveria uma família de codorninhas. Poderíamos fazer do quartinho do fundo um poleiro. Minha mente não cessava. Planejei muitas coisas.

Chamaria-se Morgana.

Pousei-a em seu novo habitat. Um quintal grande, com direito a quartinho dos fundos (ironicamente chamado "Caverna do Dragão". Aliás, sabiam que o episódio final de Caverna do Drag...), uma lavanderia, um banheiro e alqueires e alqueires codórnicos para pura diversão. Um verdadeiro play center. Para meu orgulho, Morgana já desbravava heroicamente a fenda existente entre a parede e o tanquinho.
Detalhes a parte, o que comeria Morgana?
"Calma aí, Morgana, que eu já volto."


No anseio de alimentá-la logo, pois só Deus sabe há quanto estaria implorando por cuidados, saí à procura de um especialista. O Oráculo, o pagé, o ermitão, a fonte da sabedoria e da plenitude espiritual: Seu Zé, o ancião proprietário do bar Santa Rita (já citado em Sutiã 44). Coloquei-o a par rapidamente da situação, e com muita firmeza o highlander de óculos me explicou que codornas comeriam alpiste, mas que um fandangos seria útil, por hora.
Fandangos na mão, agradeci e segui rapidamente rumo a minha casa, apenas um quarteirão do bar.

"Morgana! Morgana! Psssss... psssss... psssssss..."
"Ué..."
Minha mais nova amiga havia sumido. Procurei por toda parte, até o momento em que uma testemunha depôs contra Morgana:
"Era um pombo? Eu vi um saindo da cozinha, passando pela sala e saindo pela garagem. E esse fandangos aí?"

Raphael, um dos outros três que dividem o fardo da residência comigo, paulistano nato que não sabe a diferença de uma galinha e um pato, havia visto da porta de seu quarto um "pombo" passando por seus pés e saindo pela porta da frente. Porta que estava entreaberta desde o momento que segui para a compra do fandangos.
o.
"Cacete. Você viu e não fez nada?"
"O quê? Era pra matar o pombo?"
"Era uma codorna. Droga."
"Dá um poco de fandangos preu."

Era uma cigana. Havia escolhido a liberdade a se trancafiar num quintal com filhotes diversos e uma rotina de fandangos. Passei a tarde imaginando o que estaria fazendo Morgana. Por que havia fugido. E se havia topado com Matilda em algum lugar, tendo em vista que a magricela não apareceu na porta de casa pra comer por uns dois dias.

sábado, 23 de agosto de 2008

A alegria das estradas


O ranger de dentes é inevitável. Apreensão. Cabeça baixa. "Lá vou eu de novo".

Ptishhhhhhhhh!

Abrem-se os portões, você está em um ônibus.

Inóspito, anecúmeno, intragável. Ambiente de integração forçada, em que a tensão começa antes de entrar e só acaba depois de sair. Onde a hostilidade impera em cada ato, em cada olhar, em cada suspiro longo e arrependido.

"Não senta aqui. Não senta aqui. Ele tah vindo...Senta aí na frente. Putaquiopariu! olha o tanto de mala. Devia ter pego a poltrona 29."
- Boa tarde, acho que meu lugar é aqui do seu lado.
(Acha? então vê direito.)
-Boa tarde.

Ambiente em que a democracia dos odores é harmoniosa. Uma mistura única de entorpecentes oriundos do banheiro e dos intestinos dos nobres passageiros. Um bafo quente e denso que arromba os pulmões e só se dissipa quando se mete a cara na rinite (quero dizer, poltrona) ou abre-se a janela. Arrrrr! Arrrrrrrrrrrrrr!
- Você pode fechar a janela por favor?
Merda.

Os celulares viram mega-fones.
- Alô, Milena? chama o Adenor. ADENOR! MOLEQUE, SAFADO! ahã...ahã...isso, chego 8:00hs. NÃÃÃO ACREDITO! MÁQUINA DE COSTURA? ABAJUR VERDE?(risadas muito altas) GINÁSTICA OLÍMPICA? VIROSE? ESCAPISMO? O CLAUDIÃO É FÓÓÓDA MESMO!

Famílias felizes.
"Safada! eu furucê!"
"quêsse garfo? cê num é homem".

Bêbados felizes.
"o Maluf voltou como cachooorro, todo mundo vol-ta-rá. Amém! ele morreu? Cara! você tem um trocadim? MOTORISTA!PODE CORRER! CORINTHIANO NÃO TEM MEDO DE MORRER!"

Tarados infelizes.
"Oooi".

Passa o tempo. Acostuma-se com o cheiro. Acalmam-se os ânimos. Paz.

E é nesse momento em que choram os bebês.

Reclinam a poltrona da frente como um guindaste sobre suas pernas. Os vidros embaçam de baba gasosa. O choro causa pânico. A maioria finge dormir. Os que conseguem, roncam.
Desce, dramin. Desce.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

63 dias para a fogueira de São João

Fogueira de São João, entrega de TCC, dá no mesmo.
O tempo é relativo. O caminho é longo. O trabalho é difícil e a recompensa é pouca.
Já dizia Herman Hesse:

"Pau que nasce torto, nunca se endireita (...)".




Prepara a lenha.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Traumas

Todos possuem algum tipo de trauma. São experiências cruelmente marcantes de suas vidas concebidas a partir de contatos desagradáveis com tipos diferentes de animais, alimentos, meios de transporte, lugares, pessoas, estudos, relacionamentos, etc. Existem infinitas formas de se tornar alguém traumatizado.
No meu caso, não posso ver um ganso sem recordar das férias de julho de 1991. Ah! 1991. Esta nobre ave, responsável pelo embelezamento de lagos e lagoas, não passa na verdade de um ser rabugento e violento. Vivendo em bandos, como hienas, utilizam seus “qüés” dissonantes e bico duro para aterrorizar a vida de pobres crianças que se aproximam de seu habitat. Com apenas 5 anos de idade, aprendi que para pescar em algum lugar que tenha gansos por perto, é necessário ter bagos. A barra é pesada. Eles não têm medo de pedrinhas nem varas de bambu.
Aprendi que não adianta correr desesperadamente, pois os mensageiros do inferno esticam o pescoção pra frente de forma a lhe alcançar na hora de bicar.
Aprendi que calça jeans protege das bicadas melhor que bermuda.
Aprendi que chorar na frente de adultos por medo de ganso é motivo para ser ridicularizado. Me-do.


Dentre tantas outras experiências traumáticas, como as conseqüências de pressionar somente o freio da frente de uma bicicleta em alta velocidade, tenho uma má lembrança que nomeei “Trauma Migratório”. Um trauma adquirido derredor o Ensino Fundamental, Guaratinguetá.
Minha sala era unida aos olhos de quem a observava de fora, mas multifásica para quem a via de dentro, como o leite. Sem julgamentos específicos, havia um sistema de castas que dividia por “estranheza” as crianças. Preestabelecendo seus lugares para sentar e as pessoas com quem poderiam se comunicar. Esse sistema de castas era baseado no “Método Macauly Calkin”: quanto mais parecido com o loirinho do “Esqueceram de mim”, mais normal o garoto seria considerado, possuiria mais liberdade para dialogar com as garotas, seria convidado para todas festinhas de aniversário e teria livre acesso às carteiras da classe. Os diferentes logicamente, receberiam tratamento diferente. O gordinho da sala, o japonês, o Zé Preto (inoxidável Zé), o garoto que tinha três metros de altura com apenas 10 anos e eu, o narigudo boliviano/turco/indiano/norte rio grandense recebíamos o tratamento baseado no “Método Cirilo”: aqueles que nunca conquistariam uma “Maria Joaquina”, que pereceriam no fundo da classe e que não seriam convidados para todas as festinhas. Essa divisão era intensificada quando notado que de alguma forma, os já excluídos eram ruins no futebol, tinham bigodinhos, aparelho e/ ou espinhas. O “Trauma Migratório”, portanto, nada mais é que uma recordação de um tratamento xenófobo no âmbito escolar.

Nós não éramos imigrantes ilegais, nós éramos "não-legais".
Porém, unidos o grupo de gremlins do fundão arranjavam o que fazer. Adeptos de Star Wars, aulas de ciência, bandas que não "P.O. Box", esportes que usam as mãos e Coleção Vagalume, às vezes aproveitávamos oportunidades para alcançar o êxtase vingativo, como nas partidas de “queimada” das aulas de Educação física, em que mirávamos nas cabeças de nossos opressores.
Aprendemos muito com isso. Desenvolvemos um apresso por coadjuvantes, como Zacarias, Patolino e o Homem de Lata. Percebemos a beleza no interior das pessoas, e não somente nos cachinhos e nos narizes pequenos. Constatamos que algumas pessoas superam essas diferenças, e criam laços duradouros de amizade.
E descobrimos que se a bola acerta o nariz, dói mais.

domingo, 27 de julho de 2008

A volta do que não foi

A sinceridade é a base de tudo. Pois bem, falarei a verdade. Não fui eu mesmo nos últimos dias, aliás, nos últimos meses. Vocês não vão acreditar!
Acontece que eu virei uma espécie de chinchila.
Pois é, estava eu fazendo meu cooper matinal (por volta das 5:30 da manhã) na floresta próxima do castelo de meu pai (portão-norte) quando encontrei uma senhora corcunda e miúda, de vestes negras, chapéu pontiagudo e pés que não tocavam o chão (o nariz era normal, parecido com o meu).

"PA-RAN-GA-RI-CO-TI-RI-MIR-RU-A-RO!"
Gritou com uma vareta em mãos!

E foi-se rindo.

Desde então fiquei assim.

Por sorte, ontem a encontrei na fila do INSS e a segui até um penhasco na beira de uma represa, de onde a derrubei jogando pequenas amoras em seus olhos.

Essa foi sua última foto, tirada por um esquilo voador que me acolheu em sua árvore nos últimos fatídicos meses:


Com sua queda, o feitiço se foi.
Gostaria que entendessem e que não me julgassem. Tendo em vista que o responsável pelas atitudes grosseiras e ininteligíveis que cometi nos últimos meses era apenas o saci da floresta que a senhora da floresta havia tranformado n'eu.

Portanto, caso você tenha me visto e eu não lhe cumprimentei (no msn, orkut, na rua ou na cozinha de casa), que eu tenha lhe ofendido, falado mal de você ou de outras pessoas, sido sarcástico, drástico, ginástico, elástico, bombástico, sádico (não rima mas tem a ver com o assunto), que não tenha pago ou prestado contas, rido de suas misérias ou gargalhado das minhas, bebido a mais, cuspido no chão e visto com a cueca por cima das calças...não era eu.
ERA O SACI!
Nada como um recomeço.

Cotidiano III


- Não vou nem comentar.

- O quê, mulher?

- Não quero falar disso.

- Então tá.

- Você não quer saber?
- O quê?

- Eu estou tendo um dejà-vu...

(uma sobrancelha se levanta) - É mesmo?

- Eu sabia que você não ia querer saber o que eu não queria comentar.

- Mas se você não queria comentar, como queria que eu ficasse enchendo o saco pra saber?

- E lá vai ele! dejà-vuuuuuuuu!

- (...)

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- Ah! vai então! fala de alguma coisa feliz.

- Pô, Sirlene! Não é assim que se faz. Você não pode chegar e pedir um tema de conversa. É ruim. É como pedir pra alguém contar uma piada.

- E o que que tem?

- Ninguém gosta. A pessoa fica acuada, fogem as palavras.

- Ah! virou poeta agora? "nhé nhé nhé, correm as palavras"

- fogem...

- Conta uma piada então.
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- Leopoldo...

- QuÊ?

- Você já percebeu que a gente virou velho?

- Não se vira velho...se fica velho. Ou você acha que alguém acorda velho do nada? Além do mais, a gente tem 28 anos.

- "Além do mais bilu bilu"...não é disso que eu to falando. Seu metido a Pasquale.

- Putz grila....e ainda tenho que ouv...vai..t...mer...

- quê?

- Nada. Então, do que você tá falando?

- Tomar no cú do Pasquale.

- "Óssa sinhóura"! educação...

- Que a gente virou velho da mesma forma que nossos pais e nossos avós viraram...a partir do momento que uma mudança estrutural na sociedade ocorre.

(risada interna)- Mas não é que é, mesmo?

- Dos padrões, eu digo. Sabe, prefiro não entrar na discussão da aplicabilidade/benefícios/quantos bombons de licor pode-se comer antes de dirigir/bafômetros/inconstitucionalidade/63% menos mortes da nova lei 11.705, que altera o Código de Trânsito Brasileiro. A tal da lei seca. Certa ou não, é questionada em alguns aspectos.

- Aspectos...hm...

- A verdade é que ela muda muito mais coisa do que pensamos. Ela dividiu mundos e gerações. Conversas de pai pra filho. Tipo (voz grossa) "Deixávamos o vidro do carro aberto, as portas destrancadas. Era tudo mais fácil, rapaz." ; "Ihhh, menino! no meu tempo ficávamos conversando até tarde, sentados na calçada sem parecer que éramos traficantes, nem com medo de ladrão."

- Ladrão...hm...

- Nós viramos velhos porque agora podemos falar uma coisa bem diferente de "no meu tempo". Característica mesmo, sabe. Tipo (voz grossa de novo) "Menino! no meu tempo a gente bebia pinga, vodka, cerveja e saía pra dirigir."

- Ooooopa. Pois é.

- Você não ouviu nada que eu disse, né? Cretino.

- Depois que você falou "mudança estrutural da sociedade" eu vi que era piada.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Lendas da paixão

Ela havia caído em uma arapuca.
- Cacete! uma arapuca! - disse.

E prometeu nunca mais acreditar de forma entregue às verdades alheias.
- Nunca mais.

Nada havia mudado.
- Salpicar esterco com açúcar não o transformará num churros.

Nada haveria de mudar.
- Seria como colocar orelhas de coelho em um pato.

Acho que ela ficou meio louca.
- Preciso andar com polígrafos portáteis...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A garagem do tesouro e o cão pirata

Bão tamém.

É muito engraçado quando você não sabe se algum fato foi sonhado ou real. Essa semana, tendo em vista que tenho dormido mais que o normal, venho observando uma interação nesses dois planos.
Enfim. Eu preciso falar.

O que acontece é que... eu vi um cachorro pirata. Isso mesmo.
Vai dizer que você nunca viu um?

Foi mais ou menos assim que aconteceu...

Numa daquelas viagens que você volta dormindo no banco de trás do carro, acordei e dormi umas 18 vezes, de forma a dissipar a tenra linha da razão.
Das várias paradas antes de chegar em casa, já em minha cidade, paramos momentaneamente em frente uma daquelas casas com vários cachorros. Daquelas casas que você sabe que o dono adotou vários cachorros por dó, considerando que poucos eram agradáveis de se ver.

Por entre todos aqueles cães, havia um animal diferenciado. Canino, de fato, mas bem diferente. Era um velho magricela do tamanho de um pé 42, preto cabeludo descabelado, cego, com olhos grandes brilhando num azul bolinhas de gude inconfundível. Com o olhar azul serial-killer, em pose estática, latia baixo e pausado, mas continuamente (mais para um "RUF!" que para um "AU!"), obrigando-me a conhecer seus restos de dentes e os vãos de onde haveriam dentes nos bons tempos de frolic e biscrok.
Se não bastasse a imagem de um animal empalhado latindo, ele resolveu se mexer. Andava com as patas magricelas levantando como se marchasse num campo minado, ora abrindo as pernas para andar, ora fechando. Provavelmente consequência da artrite/artrose. O mais notável de seu andar era a forma como a perna esquerda traseira não dobrava, assemelhando-se a uma perna de pau.

Pois bem, o highlander da garagem não dobrava a pata esquerda traseira, era bravo e tinha olho de vidro.

Eis que observa-se uma movimentação. Um pedaço de osso/cartilagem de frango de domingo surge de dentro da casa rumo a garagem.
Provavelmente o dono sussurrou.

"Se matem, coma quem sobreviver".

O tempo parou, os latidos cederam. Sabemos, a lei é a do mais rápido. Pegou comeu.

RUF! Ouviu-se. Era o cão pirata.
(silêncio respeitoso)

Abriram caminho e o cão pirata seguiu sua incursão rumo ao osso, como quem dançasse "Beat it - Michael Jackson". Observado por todos, confiante em sua lentidão, cheirou o chão até o X do tesouro e o agarrou com suas verdes gengivas.

Agora não sei se foi sonho ou se aconteceu.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Cachaça, pinga, cânha, aguardente...


“Quixiramobim, 14 de fevereiro de 1976

Ilustríssimo Senhor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira,

Venho humildemente por meio desta deixar meu parecer antagônico ao vosso em pequeno mas importante item de vosso labor. Batizado como Leopoldo Costa Filho (Costinha), 67, sou membro do Corpo Quixiramobense de Truco, do Clube de Bocha Reginaldo Rossi & Amigos e proprietário do Bar do Torresmo.
Reconheço admirado e respeitosamente vosso pertencimento a Academia Brasileira de Letras, a Academia Brasileira de Filologia, a Academia de Ciências de Lisboa e a Hispanic Society of América, mas acredito ter observado um equívoco em vossa concepção do significado da palavra “comemorar”.

Co.me.mo.rar v.t.d 1. Trazer à memória; fazer recordar; lembrar. 2. Festejar, celebrar. [C.: 1 (ó)] § co.me.mo.ra.ção sf.; co.me.mo.rá.vel adj2g.; co.me.mo.ra.ti.vo adj.

Hoje faz 42 anos que observo as relações humanas num contexto boêmio, tendo em vista que há 42 anos finquei meu corpo e alma na construção deste fantástico ambiente de bebidas e torresmos para a população de Quixiramobim. Desta forma, afirmo com olhar firme e dedo indicador aos céus que Co.me.mo.rar não é um termo que se refere somente a “fazer recordar, lembrar”, mas também, “tentativa imediatista de perda parcial ou total da memória, de lembranças de acontecimentos específicos, ou de sentimentos desconexos inerentes à alma humana através do entorpecimento descontrolado pela “marvada”.
Falo também por mim.

Agradecido pela atenção,

Costinha”
Acervo: Pinacoteca, São Paulo.

Comemoro pois:
Hoje vejo minha casa afundando como vaca em atolêro (tendo em vista que, devido vazamento inviZivel, Sá e Guarabira tinham razão, e o sertão virou mar sob meus pés);
Pois o mar tem preço, e a Sabesp tá cobrando;
Porque chegou a Sexta-feira Santa das formigas de casa, e eu não tenho mais atum;
Porque eu vou começar o TCC;
Porque eu não sei sobre o que vou escrever no TCC;
Porque o porteiro continua abordando;
Porque a velha continua reclamando;
Porque o Dedé voltou a trabalhar com o Didi.
Desce, marvada!

sábado, 14 de junho de 2008

Ano de 364 dias

Só para constar, não escrevi sobre o Dia dos Namorados porque não apoio o roubo desse dia para uma camada restrita da sociedade. Acredito que o dia 12 de junho é importante por vários outros fatores e acontecimentos históricos, que deveriam ser tão lembrados e levados a sério quanto a troca de presentes entre pombinhos.

Por exemplo, dia 12 de junho é aniversário do Maguila. Disso ninguém lembra.


Flávio Rossi

Quem poderia esquecer do 12 de junho de 1560, o dia da Batalha de Okehazama, em que Oda Nobunaga passou fogo no Imagawa Yoshimoto. Graaande Oda. Inoxidável daimyo do período Sengoku da história japonesa.

Em 1969, o dia em que Antônio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum, adentrou Os Trapalhões.


E você, solteiro, que ficou o seu dia 12 de junho de 2008 se sentindo coagido pelo dia que lhe foi roubado, lembre-se que sempre há alguma inutilidade como essa para ser feita ou pensada para passar o tempo.

A casa em que sobrevivo

Se não bastasse a galinha que voltou do mundo dos mortos, agora essa casa deu pra me pregar peças todos os dias.

Não sei quanto a sua casa, mas a que eu moro tem formigas. Muitas. E foi na cozinha dessa casa que vi há alguns dias algumas centenas daquelas formigas bem pequenininhas carregarem um pedacinho de atum para dentro de um buraco na parede. Isso mesmo! A-t-u-m na parede. Logística fórmica. Deve ter tido uma festa e tanto naquele buraco aquela semana. E eu devo ter perdido uns 20 minutos observando o roubo do atum. Babei de tão impressionado.



Na cozinha, quando não estou observando insetos, normalmente estou tentando cozinhar ou comendo. Porém, para isso preciso de alguns utensílios, como talheres. O problema é que, garfos, facas e colheres, de dentro da gaveta, sabem minhas intenções e do que preciso. E transformam-se no que não preciso. Desta forma, quando preciso de colheres, só acho facas. Quando preciso de facas, só acho garfos. Houve o dia que só achei canudos na gaveta. Os malditos talheres estão se superando.
Porém, a briga é boa. Até que passo a perna neles de vez em quando.
- Putz, como será que vou cortar essa carne, hein? Acho que preciso de uma faaaaca...Arrá! Te peguei, colher d’uma figa!

A logística do atum, a máfia dos talheres, nada afeta a dignidade do ser tanto quanto a louça suja. Propagando-se por progressão geométrica, a nada simpática louça suja é a festinha dos utensílios de cozinha na pia, com convite especial para os fungos, berebas e as águias domésticas conhecidas como mosquitinhos de banana. Não há responsáveis pela louça. Mesmo se houver apenas um copo sujo, a pia estará cheia em algumas horas. Reprodução por brotamento.



O problema é quando não há água para lavar a louça. Aí é que entra a maior pegadinha pregada pela casa nos últimos anos.
Total a pagar: R$********899,96

Isso tudo porque, segundo o Osmar:


"Houve um vazamento inviZível no ramal interno não coletado".
Agora fiquei preocupado, poiz paresse que eçe problema não tem solussão.
Mais notícias sobre o novo Aquífero Guarani, em breve.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Pequenas idéias, grandes negócios

Como uma ave de rapina do mundo-cão neoliberal atual, invadi o mundo dos networking`s, feedback`s, headhunters`s e time is money.
Observei o mercado. Ouvi seus problemas e súplicas e fiz meu papel de empreendedor: formulei soluções.

Disk-pacú:

· 100% dos brasileiros já tiveram SVC (conhecido no universo científico como Subitum Vontadeum de Cagarum).
· 101% desses SVC’s acontecem em momentos e locais impróprios.

Comeu coxinha cremosa? O cafezinho com pastel não caiu bem? Não tem papel? Carregar papel higiênico na bolsa é coisa de gente fora das tendências?



Disk-Pacu!


Por que não garantir que você não vai perder nenhuma meia limpando a busanfa no mato (nem a dignidade limpando a busanfa COM mato)? Especial para pescadores.

Pronta entrega, sem constrangimentos.

A cada 10 ligações, ganhe um bom ar da Gleid. Pois agora, essa história de ‘‘só se for na casa do Pedrinho’’ é coisa do passado.

Bom dia Pizza!

Sobrou um pedaço de pizza de ontem? 98% dos brasileiros a devoram, gelada, pela manhã. O fato é que todos gostariam de ter mais dessa delícia geladinha, mas não abrem pizzarias no período matinal.

Bom dia Pizza! Entregamos nossas sobras de pizza gelada no período matinal para você e sua familia não brigarem logo no começo do dia por algo que se pode ter pela bagatela de R$0,99 o pedaço.

Ao comprar 2 pizzas completas, você ganha uma Coca-Cola quente. Pois claro, qual a graça de ligar para o Bom dia pizza se não ter que ligar para o Disk-pacú logo depois?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Para o dia que precisar persuadir uma criança a comer frutas


Ahhh! Não quer comer?

Você então não deve saber a história do garoto que dormia subitamente sempre que comia frutas. Uma reação alérgica inusitada, nada comum, que afetava 1 a cada todos os outros garotos nascidos até o momento.

Descobriram que o pobre sofria de Fructusitite sonularis quando quase morreu ao cair do alto de uma goiabeira. Pensaram que era apenas preguiçoso, mas a família passou a se preocupar quando começou a bater a testa na mesa da cozinha todos os dias depois do almoço, coincidentemente quando tinha fruta de sobremesa.

Pois é. O pior é que o coitado gostava de frutas. Babava só de pensar em maçãs, bananas, pêras, melancias, morangos, pêssegos, carambolas, jabuticabas, pitangas, goiabas, amoras, mangas, e principalmente, jambos. Comia até caju o desgraçado.

- Não amarra a boca? Minha mãe disse que é ruim comer caju, bom é só o suco.

- Que nada minina, é uma delí... - POF!

- Adauto? Adauto? Dona Adalgiiiiisa! O Adauto dormiu de novo!

Na escola era pior o sofrimento. A hora do lanche era repleta de lancheiras coloridas forradas de frutas suculentas.

''Merda, odeio doritos''. Pensava. ''Daria tudo por um teco de maçã.''

Triste né?

E você aí, chorando por causa de um limãozinho. Come logo, moleque!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Homenagem à Filomena

Um dia, a rosa encontrou a couve-flor e disse:

- Que petulância te chamarem de Flor! veja sua pele: é áspera e rude, enquanto a minha é lisa e sedosa... veja seu cheiro: é desagradável e repulsivo, enquanto o meu perfume é
sensual e envolvente. Veja seu corpo: é grosseiro e feio, enquanto o meu é delicado e
elegante... Eu, sim, sou uma flor!

E a couve-flor:

- HELOOOOOU, QUERIDAAAA!
De quê adianta ser tão linda, se "ninguém" te come? Hein?

Vai filó!



Isso que dá falar a verdade.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Método Puta Merda de Aprendizado


Há males que vem para bem. A infalibilidade do mundo e do homem os torna frígidos e de uma arrogância verde-cuspe insuportável. É preciso errar. Para aprender, e para fazer os outros rirem.
Porém, quando se quer fazer tudo certo, existem alguns métodos que nos ensinam a ser mais atenciosos, espertos, astutos, malandrangos. O mais antigo e importante de todos é o método puta merda de aprendizado, recentemente patenteado por mim. Sobrepondo-se aos respeitáveis métodos socrático, suzeleyano e capitão-nascentista, o método puta merda de aprendizado consiste numa inquietação espontânea e intensa da alma. Prolonga-se por alguns segundos pós-acontecimento-indesejado, enquanto profere-se de forma épica o termo ’’puta merda!’’. O aprendizado é subseqüente e imediato. Exemplo:

Você deve R$ 72,50 pro Epaminondas, você não tem dinheiro. A primeira pessoa que você vê ao sair de casa é o... Epaminondas! PUTA MERDA!
Conclusão imediata: Olhar pela janela antes de sair de casa.
Aprende na marra.

De modo prático e de intelectualidade invisível aos olhos de quem vê, este método é observável no dia-a-dia de qualquer ser humano, podendo ter suas ’’aparições’’ classificadas em várias categorias divididas em nível de intensidade. Vamos a elas.

1) Categoria Tommy Lee Jones:
Acontecimentos leves e corriqueiros, Tommy Lee Jones é aquele puta merda dito em pensamento, seguido de uma organização lógica e rápida de soluções possíveis. É o devagar ’’Puuuuuuta merda’’. Exemplo:

Ex.1) Lindo dia, um bom café da manhã, roupa e sapatos novos, rumo ao trabalho. Assoviando Borbulhas de Amor de Fagner, chega ao escritório e nota um cheiro estranho. Ao olhar para baixo, percebe que seu sapato antes novo está repleto de dejetos de um poodle com problemas intestinais. Puuuuuuuta merda.
Conclusão imediata: Morte aos poodles.

Ex.2) Pré-show de sua banda predileta. Pegou trânsito para pegar todos seus amigos folgados: o Queixo, o Câimbra, o Picanha, o Carlinhos e o Nestor.
- E aí galera?! Conhecem a Dorinha?
- Nestor, não sei se vai caber no fusca cara.
- Ah! A gente aperta né?
Segue rumo ao espetáculo. Depois das dificuldades para conseguir vaga no estacionamento, da briga com o flanelinha, da fila que todos furavam e do começo de chuva na parte descoberta da fila, logo você veria sua banda predileta. A não ser aquele cartaz: ’’Ingresso + qualquer quilo de alimento, menos sal e açucar’’. Puuuuuuuuuuta merda.
Conclusão imediata: Persuadir Dorinha de que sua chapinha no cabelo está arruinado pela chuva, e de que Nestor deveria acompanhá-la até sua casa.
- Nestor, deixa o seu quilo de arroz comigo?

2) Categoria Aracy Barabarian
Aquele que você percebe ter falado em voz alta quando te repreendem com olhares hostis e desaprovação. A solução não permite soluções imediatas.

Ex) Depois de um ano de cursinho muito bem pago e bem estudado, nos horários de almoço do serviço, você sabe que aquele momento é único. Você precisa ir bem neste concurso pra alcançar um salário mais digno e uma vida com menos goteiras e miojos. Você responde a primeira questão, a segunda, a terceira, está tudo indo bem. Hora do gabarito, faltam apenas 5 minutos. Você está certo de que foi muito bem na prova. Gabarito preenchido, você arruma suas coisas, levanta, estica a papelada ao cara-de-fuinha que ficou ’’cuidando’’ da sala e lê, sem querer, no rodapé do pequeno gabarito preenchido em azul em suas mãos: Preencher o gabarito apenas com caneta preta. Boa prova.
Puta merda!

3) Categoria Palavrão duplo:
Poucos o conhecem, todos o utilizam. É quando você percebe que de alguma forma, você está na bosta. Esta categoria é visível quando o paraquedas não abre, segundos pré-atropelamentos, coisas do tipo. Costuma-se ouvir putaqueoparius seguidos, putamerdas e algumas vezes um simples: Fodeu.


Depois explico melhor. Isso vai me deixar rico ainda.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Jornalismo invejável

Coisa linda.

O porteiro carente


“Bom dia”, dizem saindo (quando dizem) com sorriso rápido e constrangido. Não ousam perguntar se “ta tudo bão”, pois assim a fuga fica mais difícil. Ele caça olhares, ele puxa assuntos, ele é um porteiro carente.
Lá pelos seus 50 e poucos anos, com bigode pomposo compensando a careca, apresenta-se uniformizado e cheio de sorrisos, com comunicatividade hiperativa e talento para fazer cara de dó quando alguém não lhe dá atenção.
Possui habilidades especiais, destacando-se a de transformar diálogos em monólogos, a de ser onipresente em seu local de trabalho (clones ou controle do espaço-tempo, não sei ainda) e a de despedir-se puxando novos assuntos.

- Sabe o que é... eu tô meio com pressa.

- Claaaro! Só me diz uma coisa, qual seu sabor de pizza predileta?

- Hã? Ah... Acho que frango com catupiry! Por quê?

- Ah! Só pra saber. Eu gosto de frango também! Frango é engraçado, né? Acho que todo mundo gosta. E pensar que tinha vida, e a gente come.

- Pois é.

(silêncio)

- Então, até logo Seu Arnaldo.

- Até! Seu nome é?

- Ulisses.

- Sabe que quando eu era pequeno eu tinha um vizinho que chamava Ulisses? Bonito nome esse. Um dia ele comeu goiaba verde e ficou com dor de barriga dois dias. Eu não como goiaba verde de jeito nenhum.

- LEGAL. Eu tenho um ônibus pra pegar...

- Eu adoro ônibus! Aquelas janelas enormes, né? Pra onde você vai?

- Pra casa, se der tempo.

- E você mora por aqui mesmo? Esse bairro é meio perigoso... sabe que eu acho que vendem drogas por aqui? Esse é um problemão da juventude, né? Drogas... ei! Pra onde você vai?!

É melhor correr. E se você olhar para trás, ele estará com cara de dó.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Cotidiano II




A música havia parado há um tempo, só ela não havia percebido. Estava ausente de si, do que a cercava. Não bebia.
Quando percebeu estar sendo observada, sentiu vergonha da vergonha que sentiam dela, e resolveu se retirar. Caminhou só.
Morava em uma pequena vila ao norte do sul do país e ao sul do norte do mesmo. Difícil especificar a latitude e longitude. As estradas de carros não chegavam até lá.
Sentia vontade de falar com alguém, mas todos dormiam.
- Ah!
Que agonia. Que sentimento de culpa por estar ali sem nada fazer. Que peso na consciência por, quando ocupada, atarefada com o que não considerava útil. Ocupar-se com o que não lhe preenchia parecia-lhe suicídio a prestação. Apesar de na vila não haver Casas Bahia e dela não conhecer formas de pagamento divididos em prestações. Era algo semelhante.

O céu não a atraía, nem tão estrelado como estava.
Antes de fugir com um domador de leões de circo de bigode proeminente e careca brilhante, sua mãe a proclamava filha também da Lua, pois esta se fez aparecer inteira para ver de perto seu nascimento. Também não lhe dava mais prazer de olhar a Lua como antes.
Nada lhe dava paz.
Olhava o chão, mas via através. Seus olhos queriam ver o nada. Afundava sobre o que deixava de ser chão e passava a ser uma infinidade de pensamentos desconexos a serem agarrados aleatoriamente. Desordem de idéias que pouco a pouco se tornaram rotineiras. Olhava através das pessoas, como em um caleidoscópio. Muitas vezes quando retornava o foco de seu olhar e a unicidade de seu pensamento, estavam todos curiosos com sua incapacidade de se auto-controlar e poupá-los de sua miséria profunda de uma moça cheia de mazelas e solidão. Largos sorrisos amarelos se espalhavam a sua volta.
Noites mal-dormidas, olhos fundos.

Passou a caminhar todas as noites, sem rumo. Falava com o céu, com a escuridão, com o frio. Abraçava suas dúvidas. Diante do nada, de olhos fechados, ouviu de seu coração:

“Nesses momentos em que arrepia o meu corpo,
e minha voz reside só em minha mente,
eu não sei se estou deveras louca,
ou apenas mais que consciente.”

“Venha vento, pois estou quase acabada...
Pra que eu possa esquecer este tormento,
pra que a luz me faça paz neste momento,
e em minha vida digna de ser amada.”

“Eu não quero seguir linhas já traçadas,
não quero ter as mesmas glórias nem as dores.
Quero dentro dos meus mundos e amores,
constituir a minha vida além do nada.”.

Apenas alguns quilômetros dali, em outra vila em que a música já saía de caixas de som, dançavam sob luzes coloridas ao som de “Crééééu, créééééu” aquelas que se encontravam cheias de certezas sobre a vida.

domingo, 20 de abril de 2008

Tecnologia útil

Reuters International, 20/04/2008

O avanço da tecnologia é assustador. A Universidade de Massachussets iniciou sob a direção do búlgaro Pitzvouk Novitzk, 32, uma pesquisa sobre pneumática, utilizando pequenos transistores (mais conhecidos como condutores integrados), ou micro-chips, que influem na personalidade dos nanotecnológicos microfluidos, que são 100% relacionados à pigmentação e propriedades de filhotes de aves. Como todos sabem, junções semicondutoras podem gerar energia elétrica através da luz recebida em células fotovoltaicas. E (lógico!) nesse sentido estuda-se converver calor diretamente em energia elétrica com semicondutores na escala da nanotecnologia. Na mesma linha estuda-se refrigerar um ambiente através de termopares da nanotecnologia em efeito análogo.
Portanto, dependendo da pigmentação do animal, ele pode emitir ondas de calor ou de frio.

O mercado de eletrodomésticos está em baixa com esta notícia. Sabe-se agora que apenas um pintinho vermelho em uma caixa pode substituir um microondas, ou alguns pintinhos azuis em um armário podem constituir uma nova geladeira.

Espera-se que até o fim de 2010 sejam produzidos 1 bilhão de pintinhos azuis. Estes serão enviados aos pólos para conter o derretimento das geleiras através de suas nanopartículas de frio.
Segundo Pitzvouk Novitzk, será necessário um pintinho vermelho para cada quatro azuis, para que estes não morram congelados.

Thomson Reuters é a maior agência internacional de notícias e multimídia do mundo, fornecendo notícias do mundo, investimentos, negócios, tecnologia, manchetes, pequenos negócios, alertas, finanças pessoais, mercados acionários e informações de fundos mútuos disponíveis através do Reuters.com, pelo celular, de vídeos e de plataformas interativas de televisão. Os jornalistas da Thomson Reuters estão sujeitos ao Editorial Handbook, que exige apresentação justa e divulgação de interesses relevantes.

domingo, 13 de abril de 2008

Cotidiano


Houve aquele dia em que ele não aguentou mais, e resolveu falar:

''eu não gosto de pudim, nunca gostei.''

Se entreolharam fixamente por segundos silenciosos. O medo lhe soprou gelado ao ouvido, mas estava certo de que aquele era o momento de dizer a verdade.

''Como?'' - disse ela com um sorriso que implorou por uma piada, pois se o que fora dito fosse verdade, os últimos dois anos em que serviu pudim para aquele homem teriam sido terrivelmente imcompreensíveis.

''Eu sempre quis lhe dizer isso'', e levantando-se, continuou. ''Todas manhãs venho para vê-la, nada mais''.

Foi quando a chuva fez-se ouvir.

"Mas... por que sempre pudim de leite condensado? Você sempre pede o de leite condensado... sabe, o de chocolate é mais barato".

"É que eu sou alérgico a chocolate" disse baixando os olhos.

"Ham...". Estática.

Ele pesava uma tonelada naquele momento, aguardava uma resposta para o que havia dito antes. Ao menos um olhar.

Estática. Silêncio. Chuva. Estática.
Eis que surge das cinzas como uma fênix um velho senhor parrudo e caricato que esbraveja: "Nazareth, meu pudim!" Ele realmente havia brotado do chão.

"Caralho, que susto!" pensaram juntos.

Transbordando seriedade, ela desvia o olhar do homem que não gostava de pudins, e volta-se para o senhor de voz grossa que queria seu pudim diet de figo "prá já". Ao dar as costas, escuta do pudim-fóbico:

"Hoje pode ser de maracujá".

E ela sorriu.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Geração do fim da conversa prevista

“Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo.”
(André Gide)

Não sou sensitivo nem guru como Walter Mercado, João Bidu, Mãe Dinah ou Isaac Mendez, mas muitas vezes consigo predizer, horas antes, o rumo que uma conversa pode tomar. Não em todos tipos de diálogo, logicamente (todo os dias me surpreendo e rio com novas expressões e idéias de pessoas ditas normais).
Porém, diálogos de pessoas nascidas no fim da década de 1970 até meados da década de 1980 vêem se tornando cada vez mais repetitivos. Digo isso porque tenho fugido dos assuntos repetecados. Quando os percebo, os aniquilo. E acredito que pela primeira vez, algo escrito nesse ninho de ladainhas tem um objetivo honrado. Precavê-los da previsibilidade. E principalmente, da imprevisibilidade maniqueísta.
Assuntos nostálgicos. Acho maravilhoso observar gerações e gerações criando vínculos através da leitura de livros, prazer musical, acontecimentos político-esportivo-econômico-sócio-psicológico-tecnológicos de suas épocas. Porém, o problema é que nossa geração não consegue terminar uma boa conversa referente aos gostos e situações em comum sem acabar falando do desenho “Caverna do Dragão”. Pode parecer idiota, mas esta conversa, em qualquer lugar do Brasil que tenha uma TV, segue uma linha pré-estabelecida que eu já decorei há algum tempo.
Não necessariamente nesta ordem, normalmente começa quando alguém lembra dos Mamonas Assassinas. Aí abriu a porteira. Chaves e Chapolin (episódios, músicas e o óculos/canudo que poucos tiveram), Sérgio Malandro e aquela parte do programa que haviam portas que saíam prêmios ou um orangotango de trás, Xuxa e seu passado obscuro, Angélica, Mara Maravilha, Bozo (era Bozo um maluco beleza?) e Vovó Mafalda. topogigio, Fofão (há indícios de uma possível faca escondida) e sua bolacha waffer que comíamos na hora do lanche. Rá-tim-bum (quando você pensa que pararam de falar desse, alguém lembra de mais alguma coisa), Castelo Rá-tim-bum, No mundo da lua, O Mundo de Beakman, Glub-Glub. Brinquedos como pocobol, geleínha, lego. Atari, Mega-drive, Super-Nintendo e como era legal jogar Sonic, Mario, Street Fighter ou Mortal Combat. Goonies, Jumanji e Esqueceram de mim, além do filme do Peter Pan que tem o Robin Willians. Desenhos da Disney, O fantástico mundo de Bob, Doug, Pink e Cérebro... Em média duas horas depois do início dessa conversa, sempre algum tonto lembra que viu algo na Internet sobre um tal “último episódio” da Caverna do Dragão. Algo sobre o Vingador ser o Mestre dos Magos, ou que “us mininu” estão no purgatório ou no inferno, sei lá.
Não me incomodo com o assunto, sou participante assíduo deste também, mas me incomodo com o fato de em certos momentos sermos tão previsíveis. Todo mundo já teve uma conversa igual a essa pelo menos umas 5 vezes.


E se você acha que a nossa previsibilidade é o pior, saiba agora do transtorno que os produtores desse desenho causaram, pelo fato de não terem terminado essa porcaria, àqueles pobres fãs que ficaram órfãos. O imprevisível é muito, muito pior.






Pra quem não se conteve, segue o link do pseudo-final do famigerado.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Síndromes

Antes de qualquer olhar hostil e de rispidez, este NÃO é um post informativo sobre tipos de síndromes ou um comentário emo/hipocondríaco/sensitivo afirmando que eu vou morrer.
Hoje a intenção é analisar as p-o-s-s-i-b-i-l-i-d-a-d-e-s.

Cursando o último ano e preparando (siq) o tal do trabalho de conclusão de curso, visualizo claramente características inerentes a minha pessoa que vem se mostrando cada vez mais perceptíveis. Algumas características que poderiam dar prazer à um "médico dotô" a là novela do SBT ao me dizer: VOCÊ ESTÁ DOENTE.
(vide vídeo número um, com o pseudo-castor-ator, para visualizar melhor o olhar do "médico dotô").

Exemplos:
Segundo o Seu Zé e a Dona Wilma, eu posso ter essa:
A
Síndrome de Peter Pan foi aceite em psicologia desde a publicação de um livro escrito em 1983 The Peter Pan Syndrome: Men Who Have Never Grown Up ou "síndrome do homem que nunca cresce", escrito pelo Dr. Dan Kiley. Esta síndrome caracteriza-se por determinados comportamentos, imaturos em aspectos comportamentais, psicológicos ou sociais. Segundo Kiley, rasgos de irresponsabilidade, rebeldia, cólera, dependência, negação ao envelhecimento.Enfermidade diagnosticada principalmente nas noites de quinta feira e tardes de sábado, em eventos de sociabilização universitária.

Essa é outra:
A
Síndrome de Savant é considerada um distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência. As habilidades savants são sempre ligadas a uma memória extraordinária, porém com pouca compreensão do que está sendo descrito.
Essa é igual a do Rain Man, sabe? Então, mas eu acho que eu tenho uma síndrome de savant adversa, ou no termo científico: ao contrarius. Porque segundo minha mãe e minha avó, eu sou super inteligente. Aliás, elas já falaram isso várias vezes pra mim, pros meus irmãos e pros meus primos. Só que eu sempre esqueço de tudo. Prova que eu tenho um déficit de memória COM a inteligência extraordinária. CQD.

A saideira, porque depois desse post eu tenho que fazer alguma coisa que eu esqueci:
A Síndrome de Estocolmo (Síndrome Stockholm) é um estado psicológico particular desenvolvido por pessoas que são vítimas de seqüestro. A síndrome se desenvolve a partir de tentativas da vítima de se identificar com seu captor ou de conquistar a simpatia do seqüestrador.
Eu não fui vítima de seqüestro, mas considere o fato de você não querer fazer algo, e ser forçado a fazê-lo (como um TCC por exemplo), quem sabe pode haver semelhanças. É um seqüestro da sua alma e do seu tempo. E você ainda tende a lutar pela conquista da simpatia do seu orientador. Está tudo ficando claro.

E olha que eu não sou o único, tá cheio de gente com isso por aqui.

terça-feira, 25 de março de 2008

Samba Cerebral


Revolucionar-se-á a massa pensante,
quando golpes musicais iniciarem ao meu redor.
Insurreições diárias, rotineiras e sonoras,
constituem as músicas que tocam em meus mais profundos pensamentos.

A que toca no meu, não toca no seu,
o meu samba não é igual o de ninguém.
É aquele que vai e que vem, caracteriza o meu jeito de ser,
o meu filtro de fatos que chora e que geme, que ri e que chora,
na sombra do pé de amora, que nasceu em minha mente.

O olhar varia de acordo com o ritmo,
e a voz se cala com a intensidade do samba.
O corpo se exalta, canta, e dança,
a rotina musical que me faz viver.

domingo, 23 de março de 2008

O passarinho que morreu quando eu tinha 5 anos

Quando você não reconhece caminho algum à sua frente, é normal olhar para trás.

Hoje, no auge do desespero das incertezas de meu futuro em 2009, comecei a lembrar de momentos singulares de meu passado.

Busquei minhas lembranças mais remotas, e percebi que fui uma criança desmemoriada, de forma a saber de várias coisas que fiz pelos relatos de meus parentes, e não pelas minhas lembranças. Por isso me esforcei para lembrar dos fatos, me direcionando cada vez mais para meu passado.

Num primeiro momento, minhas lembranças se centraram em momentos trágicos, como quando levei um coice de um cavalo, quando abri o queixo com uma cabeçada "sem querer", quando a tevê caiu sobre meu pé...etc. Mas me deparei com minhas aventuras na "rua" de casa. E preferi me focar nestes momentos.

Minha rua tinha vários terrenos, daqueles que você entra e pega um monte de "carrapixos", encontra cabos de vassoura para brincar de espadachim e latas de tinta suvinil usadas. Estes terrenos hoje são (infelizmente) a meu ver focos de dengue, de insetos parasitas e receptores de entulhos de construções. Mas um dia já foram campos de guerra, trilhas de bicicleta, clubes do bolinha e áreas de pesquisa sobre animais silvestres (leia-se grilos).

Minha rua já foi campo de futebol, minha casa já foi o Castelo de Grayskull, e minha mãe já foi o vilão indestrutível que me obrigava a comer cebola. Mas o dia que vou desvendar hoje em minha memória, foi o dia e que a calçada do vizinho foi uma pista de skate.

Com aquelas garagens altas, acima do nível da rua, havia uma "descidinha" na calçada do vizinho digna de carrinhos de rolimã e de crianças sentadas em skates. O auge dessa novidade foi na mesma época em que eu era o último a brincar, regra óbvia, por eu ter sido o último a nascer (filho caçula, carrapato dos irmãos mais velhos, vulgo "sem amigos" ou apenas o mundialmente conhecido "vô contar prá mãe"). Eu devia ter uns 5 anos de idade, e reconheci esta lembrança como top 3 das minhas mais distantes.

Sob o sol das 3 horas da tarde das férias de verão, todos desciam a rampa da garagem do vizinho sentados no skate, menos eu. Enchi o saco de todos até alcançar a glória de descer aquela montanha. Entre o fardo de me aguentar e o de aguentar minha mãe, preferiram me deixar descer com o skate uma vez. Estavam Marcel, Maurício (irmãos), Plínio, Marcelinho, Dudu, Michelle, Gustavo, Zé e Leite. Todos com cara de bosta pra mim. "Anão insuportável" pensavam.

Eis que o incrível aconteceu, talvez o que me fez lembrar tão claramente daquele dia. Depois de descer a rampa e perdê-los de vista na virada da esquina, vi um chiclete redondo, branco, parecido com um pequeno ovo, na calçada. Era mais leve, estranho.
Era um ovo! Pequenino... estava meio rachado. E peguei em minha mão, sem saber ao certo o que fazer (pois isso era um acontecimento incrível para uma criança).

Quando percebi que era um ovo, idiota que sou, terminei de abrir a rachadura que havia notado. Me deparei com um horrível ser rosa, com olhos fechados roxeados e bico alaranjado (bico este que abria e fechava sem fazer soar barulho algum). Devo ter ficado observando aterrorizado aquele ser por muito tempo, suficiente para que meus irmãos viessem impacientes reivindicar seus direitos sobre o skate, naquele momento, esquecido por mim.
"Olha o que eu achei!" frase célebre e clichê de uma criança em estado de êxtase.

"É um filhote de pássaro" disse Marcel, o mais velho, com ar de quem havia visto milhares destes em sua longa jornada de moleque de rua. "Você roubou ele do ninho né, agora ele vai morrer", afirmou, arrancando qualquer sinal de oxigênio de meu pulmão e de pigmentação em minha pele, ao me jogar a culpa pelas mazelas do mundo.

"Nós podemos cuidar dele, nós temos alpiste em casa!" eureka! como eu era esperto.
"Não, ele vai morrer" - Marcel pegando o skate.
"Mas nós..."

"Vai morrer, Matheus" - Marcel com o skate.

"Mas"

"v-a-i morrer! Me dá isso aqui!", Marcel impaciente.
Eu não neguei, pois ele como infinitamente mais esperto e inteligente que eu, saberia o que fazer, tendo a certeza de que a pobre arara azul, ou falcão (eu não sabia ainda) que havia achado, iria morrer se ele não fizesse alguma coisa.

Tive raiva quando meu irmão chegou para todos e mostrou o ovo, como um achado dele... achei incrível como uma coisa que me surpreendeu tanto, também surpreendia grande parte da molecada experiente da rua. Pelo jeito eu não era tão idiota. A alegria de me sentir enturmado durou pouco, pois após alguns minutos de "passagens de mão em mão" do filhote, o recém nascido foi declarado morto.

Segui-os rua acima, desolado. Todos seguiam discutindo sobre o que fazer, atrás de Marcel, que ainda segurava, sob olhar de seriedade absoluta, os restos mortais do passarinho que nunca havia voado.

Paramos diante de um dos diversos terrenos de minha rua, e concordaram (eu não participava das decisões) em enterrá-lo por lá. Me recordo de forma clara do momento ritualístico em que meu irmão cavou um buraco da altura de um palmo de mão, com todos em silêncio, e soltou o falecido no que seria para sempre, "o túmulo do passarinho que morreu depois que o Matheus abriu o ovo logo após descer com o skate na calçada do seu Jorge".

E o triste é que, diferente dos meus irmãos e colegas, tenho essa lembrança como algo único.
Pronto, falei.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Chocolate de soja, e com mágica, por favor.


"Ah! Experimenta vai! Esse é o melhor!"

Era o que meus primos diziam, antes de eu ficar vermelho e inchado.

Você imagine o que é a Páscoa para alguém que é alérgico a chocolate. Não simplesmente alérgico, mas alguém que fica com cara de lagosta bêbada quando dá apenas uma lambidinha sexy nesse doce cheio de malandragem.
Haja Polaramine!

"A alergia é uma resposta exagerada do sistema imunológico a uma substância estranha ao organismo, uma hipersensibilidade imunológica a um estímulo externo específico. Os portadores de alergias são chamados de “atópicos”."

Recordar é viver. Vocês devem concordar que a Páscoa e o Natal eram períodos realmente mágicos até certo ponto de sua vida, tendo a certeza que você daria um dedo ou dois para ver de perto o Papai Noel ou o Coelhinho da Páscoa fazendo seu trabalho de entrega.

(Inclusive, aproveitando este momento, tenho que agradecer à minha mãe por sempre ter sido tão especial e prestativa nos períodos mágicos de minha infância. Lembro de uma Páscoa em que eu e meus irmão tivemos que seguir "pegadas" feitas de talco semelhantes a de um coelho até os esconderijos de nossos ovos, genial. Porém, encontrado o ovo, metade para um irmão, metade para o outro. Imagina se minha mãe queria me levar para o hospital em pleno feriado)
A mágica da Páscoa ia desde momentos como esse até os comercias da tele-sena de Páscoa. Eram bem legais também, o coelhinho dava, além dos chocolates, prêmios para quem fizesse mais e menos pontos, muito gente boa. Pena que meu pai nunca ganhou.
Sei que posso estar parecendo nostálgico como a Dona Wilma falando tudo isso, mas tenho a impressão que "há um tempo atrás" a Páscoa tinha mais sentido. Será que as crianças de hoje montam seus brinquedos do Kinder-ovo sabendo o por quê do ovo? Mas será que devem saber? Talvez saber o por quê do ovo seja o que eliminou toda a magia. Conhecer a história, as tradições, saber da inexistência do coelho...torna tudo muito concreto. É uma burocratização do feriado.
Para vocês pelo menos sobrou o chocolate.
Certamente há a possibilidade de compreender a Páscoa de outra forma que não a Kinderoviniana. Pelo âmbito religioso, por exemplo. Vai saber.
Vamos descobrir juntos um dos verdadeiros significados deste feriado. Para isso, sugiro este site. Escolham Jesus.

O resto é só ladainha.


ps: ovos de chocolate pela metade do preço ou por um capítulo bem feito de meu TCC.

terça-feira, 18 de março de 2008

Impossível de esquecer, mas difícil de lembrar




TCC + Sentimento de culpa por não estar fazendo nada = Coprolalia Aguda. Mais uma madrugada me afronta e as minhas loucuras tendem a sair pelos meus poros como cacos de vidro. Fundem-se lembranças e expectativas, atitudes e vontades, realidade e sonhos.

Sentiu a pressão?

Hoje eu sentei em frente ao computador destinado a escrever um e-mail para meu adorado e respeitável orientador. Me percebi errando ao ficar comendo pão de queijo, vendo tv o dia inteiro, revezando da comida pro sono, do sono pra comida. A gota d'água foi quando percebi que dava pra ver o teto da casa do vizinho da frente pela janela lateral da minha casa, se deitado em posição estratégica no canto da sala de TV. Cúmulo da vagabundice. "Quer saber? vou falar pro tal do doutor que vou escrever 3 capítulos até segunda feira, o baixinho vai ficar orgulhoso." Até que me deparei com a página aberta do Google em minha frente. Me senti estranho, sabia que deveria escrever palavras, nomes de livro e autores que remetiam ao meu tema de pesquisa, quando... de repente... Ouvi o estalo de portas batendo! não bastando o vento que resolvera derrubar a minha casa, senti meus olhos começarem a virar sozinhos até tudo ficar escuro. Minhas mãos, trêmulas, teclaram sem minha permissão 32 teclas."o ócio criativo domenico de masi". Não sei o que deu em mim. Nunca havia ouvido falar de nada semelhante. Eis que jáquetamoaqui, pressionei a tecla ENTER.


Arrá! Deixa o e-mail pra amanhã.


Curiosidades do dia:

segunda-feira, 17 de março de 2008

A hora da verdade II

O projeto do filme tem andado de vento em popa. Acabo de receber a confirmação dos roteiristas, René Moraes e Solange 44 para o desenvolvimento de nosso novo sucesso de bilheteria.
Mas a principal notícia é a confirmação do lêmure Bingbongbang como vilão de nossa história. Segue abaixo o vídeo que recebemos de seu agente.

Post scriptum: J.J. Celso, você sempre soube que seria o diretor desta obra prima. Aguardo informações sobre seu trabalho.

Schwarzenegger's Mama


Depois que você lê um pouco do Veríssimo (o piadista, não o romântico), você percebe que existem centenas de pessoas à sua volta que merecem no mínimo uma nota de rodapé referente às suas caracteríscticas, como uma homenagem às suas singularidades. Segue abaixo uma história fictícia e fantasiosa sobre uma senhora chamada Dona Wilma.

- Pára com essa balhurera desgracenta seus capeta duma figa! - Esbravejou Dona Wilma, com olhos estalados por trás dos óculos fundo de garrafa. Aos 87 anos, a pobre senhora tinha uma percepção de vida ora nostálgica, ora assassina. Ora nostálgica pois foi-se o tempo em que morava em uma vizinhança agradável de senhoras como ela, eufóricas com a beleza de Marlon Brando e que tricotavam ouvindo os clássicos da era do rádio. Hoje Dona Wilma não ri como antes. Tem como vizinhos estudantes universitários, que na sua opinião, ultrapassam todos os dias o limite permitido de decibéis, cometendo crimes como fritar ovos às 23:00h da madrugada.

Ora assassina, pois a essência de sua personalidade beira a fúria quando não consegue, devido os filhos do demônio que moram ao lado, escutar em paz seu LP de Dick Farney.

Escuta risadas na casa ao lado - devem estar drogados - pensa.

- Nestor! Ô Nestor! Ouve só esses moleques...
- Ai mulher, vem ver sua novela e deixa esses meninos em paz...
- Em paz? ha!

Ela não era compreendida. Nestor, seu marido, não tinha bagos o suficiente para lutar pela honra da casa. Era um fraco, segundo Dona Filomena, também remanescente da era abençoada do tricô com chá de erva-cidreira.

À la Janela Indiscreta, Dona Wilma normalmente vai até a frente de sua casa e observa às escondidas a farra dos meninos perdidos ao lado. Quase se sente uma espiã. Normalmente volta para sua casa e matuta sobre as opções existentes para subjugar aqueles que a tanto perturbam. Mal sabe ela que no fim deste ano os jovens pecadores vão embora, e sua existência agora aventureira retornará à monotonia da novela com o Nestor. Ela vai sentir falta.

Curiosidades:
dick farney

domingo, 16 de março de 2008

A hora da Verdade

Se eu produzir um filme, eu chamo esse cara pra ator principal.

A volta da Galinha

Quando se entra na faculdade há uma carga de responsabilidade que se deposita sobre nossa paz de espírito, ou pelo menos alguns acreditam que sim. Muitos tornam-se messias de suas próprias vidas e pensam necessitar de novas características que provem para todos maturidade. Existem os que deixam de ler gibis e compram clássicos da literatura para enfeitar a estante. Os que deixam de assistir "Doug", "Chaves" ou "O fantástico mundo de Bob" para aprender a gostar de documentários da década de 60 sobre a importância da beterraba. No meu caso, resolvi que deveria acordar mais cedo. Vencer a preguiça matinal seria uma prova e tanto da minha mudança de comportamento. Eu seria um "mininu bão".

Para isso, precisaria logicamente de um despertador. Comprei um despertador como este acima, que me retirava da cama rapidamente com "Cocoricós" insuportavelmente eficientes. Ah! Giselda... Agradeci quando ainda no primeiro ano de faculdade esta desgracenta deixou de funcionar, assim como minha luta pela maturidade. Guardei a famigerada galinha em uma caixa de madeira sob minha escrivaninha, desta forma, esqueci sua existência e iniciei minha infância universitária. Se a música em meu quarto não estivesse tão alta, eu certamente teria escutado um "Eu voltarei" da ave de rapina disfaçada.

Três anos depois, mais especificamente na semana passada, tive meu sono invadido pelo fantasma de Giselda. Ouvi seu cocoricó abafado dentro de meu quarto no meio da madrugada. Não podia ser Giselda, ela havia esticado as canelas há três anos. Maldição! Abri os olhos, acendi a luz e observei atentamente a caixa de madeira sob a escrivaninha, não sabia se era sonho ou não, portanto esperei a filha da puta abrir a caixa sozinha. Galinha desgraçada. "Cocoricóóó" ela berrava, mais forte do que nunca. Certo momento acreditei ter visto a caixa trimilicar de maneira serelepe, só podia ser ela. Levantei e fui até a caixa, uma gota de suor escorreu pelas minhas têmporas. O cocoricó estava cada vez mais alto. Abri o caixão da galinha defunta e vi o milagre que só uma pilha duracel pode realizar. Ela havia ressucitado! Ou então apenas voltado do coma, não sei. Os ponteiros deslizavam naturalmente e esbanjavam vivacidade de forma orgulhosa, assim como o cocoricó que eu acabava de calar com um tapa em sua crista. O silêncio foi aterrorizante. Como poderia? mas...hã? tive um início de cãimbra cerebral e preferi parar de pensar. Poucos segundos depois, vi os ponteiros pararem lentamente. Morreu em meus braços...para garantir, tirei as pilhas. Fui até a porta do quarto e olhei pelo corredor para me certificar de que ninguém mais do que eu havia acordado, não havia testemunhas.

A vida é cheia de sinais, esse eu não entendi. Será que é hora de voltar à minha perseguição pela maturidade? Será que devo mandar Giselda para o conserto? Será que devo usar pilhas duracel pelo resto de minha vida? Vai saber... alguém aí quer um despertador?


Música Indicada - "Michael Jackson-Thriller"

Apresentação



Enquanto a música não parar vou latir a noite inteira. Vou caçar a noite inteira. Vou praguejar e esbravejar a noite inteira. Rá! Não, isso não é um funk. São minhas promessas metaforizadas que visam lançar mão de desejos ocultos e coçar as pulgas que me fazem ser quem não gosto de ser (de forma épica, claro). Isso sem esquecer de olhar para os dois lados da rua antes de atravessar.

Vomitarei minhas circunstâncias e fadigas diárias de espírito nesse caderninho moderno. Serão repetições de altos e baixos que representam novidades minimalistas do protagonista que eu vejo e espremo cravos no espelho. Até a hora de acordar e dar bom dia pra Cacilda. E ela que me olhe torto...

Música indicada "Ennio Morricone - The Ecstasy of Gold"