quinta-feira, 24 de abril de 2008

Cotidiano II




A música havia parado há um tempo, só ela não havia percebido. Estava ausente de si, do que a cercava. Não bebia.
Quando percebeu estar sendo observada, sentiu vergonha da vergonha que sentiam dela, e resolveu se retirar. Caminhou só.
Morava em uma pequena vila ao norte do sul do país e ao sul do norte do mesmo. Difícil especificar a latitude e longitude. As estradas de carros não chegavam até lá.
Sentia vontade de falar com alguém, mas todos dormiam.
- Ah!
Que agonia. Que sentimento de culpa por estar ali sem nada fazer. Que peso na consciência por, quando ocupada, atarefada com o que não considerava útil. Ocupar-se com o que não lhe preenchia parecia-lhe suicídio a prestação. Apesar de na vila não haver Casas Bahia e dela não conhecer formas de pagamento divididos em prestações. Era algo semelhante.

O céu não a atraía, nem tão estrelado como estava.
Antes de fugir com um domador de leões de circo de bigode proeminente e careca brilhante, sua mãe a proclamava filha também da Lua, pois esta se fez aparecer inteira para ver de perto seu nascimento. Também não lhe dava mais prazer de olhar a Lua como antes.
Nada lhe dava paz.
Olhava o chão, mas via através. Seus olhos queriam ver o nada. Afundava sobre o que deixava de ser chão e passava a ser uma infinidade de pensamentos desconexos a serem agarrados aleatoriamente. Desordem de idéias que pouco a pouco se tornaram rotineiras. Olhava através das pessoas, como em um caleidoscópio. Muitas vezes quando retornava o foco de seu olhar e a unicidade de seu pensamento, estavam todos curiosos com sua incapacidade de se auto-controlar e poupá-los de sua miséria profunda de uma moça cheia de mazelas e solidão. Largos sorrisos amarelos se espalhavam a sua volta.
Noites mal-dormidas, olhos fundos.

Passou a caminhar todas as noites, sem rumo. Falava com o céu, com a escuridão, com o frio. Abraçava suas dúvidas. Diante do nada, de olhos fechados, ouviu de seu coração:

“Nesses momentos em que arrepia o meu corpo,
e minha voz reside só em minha mente,
eu não sei se estou deveras louca,
ou apenas mais que consciente.”

“Venha vento, pois estou quase acabada...
Pra que eu possa esquecer este tormento,
pra que a luz me faça paz neste momento,
e em minha vida digna de ser amada.”

“Eu não quero seguir linhas já traçadas,
não quero ter as mesmas glórias nem as dores.
Quero dentro dos meus mundos e amores,
constituir a minha vida além do nada.”.

Apenas alguns quilômetros dali, em outra vila em que a música já saía de caixas de som, dançavam sob luzes coloridas ao som de “Crééééu, créééééu” aquelas que se encontravam cheias de certezas sobre a vida.

domingo, 20 de abril de 2008

Tecnologia útil

Reuters International, 20/04/2008

O avanço da tecnologia é assustador. A Universidade de Massachussets iniciou sob a direção do búlgaro Pitzvouk Novitzk, 32, uma pesquisa sobre pneumática, utilizando pequenos transistores (mais conhecidos como condutores integrados), ou micro-chips, que influem na personalidade dos nanotecnológicos microfluidos, que são 100% relacionados à pigmentação e propriedades de filhotes de aves. Como todos sabem, junções semicondutoras podem gerar energia elétrica através da luz recebida em células fotovoltaicas. E (lógico!) nesse sentido estuda-se converver calor diretamente em energia elétrica com semicondutores na escala da nanotecnologia. Na mesma linha estuda-se refrigerar um ambiente através de termopares da nanotecnologia em efeito análogo.
Portanto, dependendo da pigmentação do animal, ele pode emitir ondas de calor ou de frio.

O mercado de eletrodomésticos está em baixa com esta notícia. Sabe-se agora que apenas um pintinho vermelho em uma caixa pode substituir um microondas, ou alguns pintinhos azuis em um armário podem constituir uma nova geladeira.

Espera-se que até o fim de 2010 sejam produzidos 1 bilhão de pintinhos azuis. Estes serão enviados aos pólos para conter o derretimento das geleiras através de suas nanopartículas de frio.
Segundo Pitzvouk Novitzk, será necessário um pintinho vermelho para cada quatro azuis, para que estes não morram congelados.

Thomson Reuters é a maior agência internacional de notícias e multimídia do mundo, fornecendo notícias do mundo, investimentos, negócios, tecnologia, manchetes, pequenos negócios, alertas, finanças pessoais, mercados acionários e informações de fundos mútuos disponíveis através do Reuters.com, pelo celular, de vídeos e de plataformas interativas de televisão. Os jornalistas da Thomson Reuters estão sujeitos ao Editorial Handbook, que exige apresentação justa e divulgação de interesses relevantes.

domingo, 13 de abril de 2008

Cotidiano


Houve aquele dia em que ele não aguentou mais, e resolveu falar:

''eu não gosto de pudim, nunca gostei.''

Se entreolharam fixamente por segundos silenciosos. O medo lhe soprou gelado ao ouvido, mas estava certo de que aquele era o momento de dizer a verdade.

''Como?'' - disse ela com um sorriso que implorou por uma piada, pois se o que fora dito fosse verdade, os últimos dois anos em que serviu pudim para aquele homem teriam sido terrivelmente imcompreensíveis.

''Eu sempre quis lhe dizer isso'', e levantando-se, continuou. ''Todas manhãs venho para vê-la, nada mais''.

Foi quando a chuva fez-se ouvir.

"Mas... por que sempre pudim de leite condensado? Você sempre pede o de leite condensado... sabe, o de chocolate é mais barato".

"É que eu sou alérgico a chocolate" disse baixando os olhos.

"Ham...". Estática.

Ele pesava uma tonelada naquele momento, aguardava uma resposta para o que havia dito antes. Ao menos um olhar.

Estática. Silêncio. Chuva. Estática.
Eis que surge das cinzas como uma fênix um velho senhor parrudo e caricato que esbraveja: "Nazareth, meu pudim!" Ele realmente havia brotado do chão.

"Caralho, que susto!" pensaram juntos.

Transbordando seriedade, ela desvia o olhar do homem que não gostava de pudins, e volta-se para o senhor de voz grossa que queria seu pudim diet de figo "prá já". Ao dar as costas, escuta do pudim-fóbico:

"Hoje pode ser de maracujá".

E ela sorriu.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Geração do fim da conversa prevista

“Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo.”
(André Gide)

Não sou sensitivo nem guru como Walter Mercado, João Bidu, Mãe Dinah ou Isaac Mendez, mas muitas vezes consigo predizer, horas antes, o rumo que uma conversa pode tomar. Não em todos tipos de diálogo, logicamente (todo os dias me surpreendo e rio com novas expressões e idéias de pessoas ditas normais).
Porém, diálogos de pessoas nascidas no fim da década de 1970 até meados da década de 1980 vêem se tornando cada vez mais repetitivos. Digo isso porque tenho fugido dos assuntos repetecados. Quando os percebo, os aniquilo. E acredito que pela primeira vez, algo escrito nesse ninho de ladainhas tem um objetivo honrado. Precavê-los da previsibilidade. E principalmente, da imprevisibilidade maniqueísta.
Assuntos nostálgicos. Acho maravilhoso observar gerações e gerações criando vínculos através da leitura de livros, prazer musical, acontecimentos político-esportivo-econômico-sócio-psicológico-tecnológicos de suas épocas. Porém, o problema é que nossa geração não consegue terminar uma boa conversa referente aos gostos e situações em comum sem acabar falando do desenho “Caverna do Dragão”. Pode parecer idiota, mas esta conversa, em qualquer lugar do Brasil que tenha uma TV, segue uma linha pré-estabelecida que eu já decorei há algum tempo.
Não necessariamente nesta ordem, normalmente começa quando alguém lembra dos Mamonas Assassinas. Aí abriu a porteira. Chaves e Chapolin (episódios, músicas e o óculos/canudo que poucos tiveram), Sérgio Malandro e aquela parte do programa que haviam portas que saíam prêmios ou um orangotango de trás, Xuxa e seu passado obscuro, Angélica, Mara Maravilha, Bozo (era Bozo um maluco beleza?) e Vovó Mafalda. topogigio, Fofão (há indícios de uma possível faca escondida) e sua bolacha waffer que comíamos na hora do lanche. Rá-tim-bum (quando você pensa que pararam de falar desse, alguém lembra de mais alguma coisa), Castelo Rá-tim-bum, No mundo da lua, O Mundo de Beakman, Glub-Glub. Brinquedos como pocobol, geleínha, lego. Atari, Mega-drive, Super-Nintendo e como era legal jogar Sonic, Mario, Street Fighter ou Mortal Combat. Goonies, Jumanji e Esqueceram de mim, além do filme do Peter Pan que tem o Robin Willians. Desenhos da Disney, O fantástico mundo de Bob, Doug, Pink e Cérebro... Em média duas horas depois do início dessa conversa, sempre algum tonto lembra que viu algo na Internet sobre um tal “último episódio” da Caverna do Dragão. Algo sobre o Vingador ser o Mestre dos Magos, ou que “us mininu” estão no purgatório ou no inferno, sei lá.
Não me incomodo com o assunto, sou participante assíduo deste também, mas me incomodo com o fato de em certos momentos sermos tão previsíveis. Todo mundo já teve uma conversa igual a essa pelo menos umas 5 vezes.


E se você acha que a nossa previsibilidade é o pior, saiba agora do transtorno que os produtores desse desenho causaram, pelo fato de não terem terminado essa porcaria, àqueles pobres fãs que ficaram órfãos. O imprevisível é muito, muito pior.






Pra quem não se conteve, segue o link do pseudo-final do famigerado.