domingo, 27 de julho de 2008

A volta do que não foi

A sinceridade é a base de tudo. Pois bem, falarei a verdade. Não fui eu mesmo nos últimos dias, aliás, nos últimos meses. Vocês não vão acreditar!
Acontece que eu virei uma espécie de chinchila.
Pois é, estava eu fazendo meu cooper matinal (por volta das 5:30 da manhã) na floresta próxima do castelo de meu pai (portão-norte) quando encontrei uma senhora corcunda e miúda, de vestes negras, chapéu pontiagudo e pés que não tocavam o chão (o nariz era normal, parecido com o meu).

"PA-RAN-GA-RI-CO-TI-RI-MIR-RU-A-RO!"
Gritou com uma vareta em mãos!

E foi-se rindo.

Desde então fiquei assim.

Por sorte, ontem a encontrei na fila do INSS e a segui até um penhasco na beira de uma represa, de onde a derrubei jogando pequenas amoras em seus olhos.

Essa foi sua última foto, tirada por um esquilo voador que me acolheu em sua árvore nos últimos fatídicos meses:


Com sua queda, o feitiço se foi.
Gostaria que entendessem e que não me julgassem. Tendo em vista que o responsável pelas atitudes grosseiras e ininteligíveis que cometi nos últimos meses era apenas o saci da floresta que a senhora da floresta havia tranformado n'eu.

Portanto, caso você tenha me visto e eu não lhe cumprimentei (no msn, orkut, na rua ou na cozinha de casa), que eu tenha lhe ofendido, falado mal de você ou de outras pessoas, sido sarcástico, drástico, ginástico, elástico, bombástico, sádico (não rima mas tem a ver com o assunto), que não tenha pago ou prestado contas, rido de suas misérias ou gargalhado das minhas, bebido a mais, cuspido no chão e visto com a cueca por cima das calças...não era eu.
ERA O SACI!
Nada como um recomeço.

Cotidiano III


- Não vou nem comentar.

- O quê, mulher?

- Não quero falar disso.

- Então tá.

- Você não quer saber?
- O quê?

- Eu estou tendo um dejà-vu...

(uma sobrancelha se levanta) - É mesmo?

- Eu sabia que você não ia querer saber o que eu não queria comentar.

- Mas se você não queria comentar, como queria que eu ficasse enchendo o saco pra saber?

- E lá vai ele! dejà-vuuuuuuuu!

- (...)

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- Ah! vai então! fala de alguma coisa feliz.

- Pô, Sirlene! Não é assim que se faz. Você não pode chegar e pedir um tema de conversa. É ruim. É como pedir pra alguém contar uma piada.

- E o que que tem?

- Ninguém gosta. A pessoa fica acuada, fogem as palavras.

- Ah! virou poeta agora? "nhé nhé nhé, correm as palavras"

- fogem...

- Conta uma piada então.
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- Leopoldo...

- QuÊ?

- Você já percebeu que a gente virou velho?

- Não se vira velho...se fica velho. Ou você acha que alguém acorda velho do nada? Além do mais, a gente tem 28 anos.

- "Além do mais bilu bilu"...não é disso que eu to falando. Seu metido a Pasquale.

- Putz grila....e ainda tenho que ouv...vai..t...mer...

- quê?

- Nada. Então, do que você tá falando?

- Tomar no cú do Pasquale.

- "Óssa sinhóura"! educação...

- Que a gente virou velho da mesma forma que nossos pais e nossos avós viraram...a partir do momento que uma mudança estrutural na sociedade ocorre.

(risada interna)- Mas não é que é, mesmo?

- Dos padrões, eu digo. Sabe, prefiro não entrar na discussão da aplicabilidade/benefícios/quantos bombons de licor pode-se comer antes de dirigir/bafômetros/inconstitucionalidade/63% menos mortes da nova lei 11.705, que altera o Código de Trânsito Brasileiro. A tal da lei seca. Certa ou não, é questionada em alguns aspectos.

- Aspectos...hm...

- A verdade é que ela muda muito mais coisa do que pensamos. Ela dividiu mundos e gerações. Conversas de pai pra filho. Tipo (voz grossa) "Deixávamos o vidro do carro aberto, as portas destrancadas. Era tudo mais fácil, rapaz." ; "Ihhh, menino! no meu tempo ficávamos conversando até tarde, sentados na calçada sem parecer que éramos traficantes, nem com medo de ladrão."

- Ladrão...hm...

- Nós viramos velhos porque agora podemos falar uma coisa bem diferente de "no meu tempo". Característica mesmo, sabe. Tipo (voz grossa de novo) "Menino! no meu tempo a gente bebia pinga, vodka, cerveja e saía pra dirigir."

- Ooooopa. Pois é.

- Você não ouviu nada que eu disse, né? Cretino.

- Depois que você falou "mudança estrutural da sociedade" eu vi que era piada.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Lendas da paixão

Ela havia caído em uma arapuca.
- Cacete! uma arapuca! - disse.

E prometeu nunca mais acreditar de forma entregue às verdades alheias.
- Nunca mais.

Nada havia mudado.
- Salpicar esterco com açúcar não o transformará num churros.

Nada haveria de mudar.
- Seria como colocar orelhas de coelho em um pato.

Acho que ela ficou meio louca.
- Preciso andar com polígrafos portáteis...

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A garagem do tesouro e o cão pirata

Bão tamém.

É muito engraçado quando você não sabe se algum fato foi sonhado ou real. Essa semana, tendo em vista que tenho dormido mais que o normal, venho observando uma interação nesses dois planos.
Enfim. Eu preciso falar.

O que acontece é que... eu vi um cachorro pirata. Isso mesmo.
Vai dizer que você nunca viu um?

Foi mais ou menos assim que aconteceu...

Numa daquelas viagens que você volta dormindo no banco de trás do carro, acordei e dormi umas 18 vezes, de forma a dissipar a tenra linha da razão.
Das várias paradas antes de chegar em casa, já em minha cidade, paramos momentaneamente em frente uma daquelas casas com vários cachorros. Daquelas casas que você sabe que o dono adotou vários cachorros por dó, considerando que poucos eram agradáveis de se ver.

Por entre todos aqueles cães, havia um animal diferenciado. Canino, de fato, mas bem diferente. Era um velho magricela do tamanho de um pé 42, preto cabeludo descabelado, cego, com olhos grandes brilhando num azul bolinhas de gude inconfundível. Com o olhar azul serial-killer, em pose estática, latia baixo e pausado, mas continuamente (mais para um "RUF!" que para um "AU!"), obrigando-me a conhecer seus restos de dentes e os vãos de onde haveriam dentes nos bons tempos de frolic e biscrok.
Se não bastasse a imagem de um animal empalhado latindo, ele resolveu se mexer. Andava com as patas magricelas levantando como se marchasse num campo minado, ora abrindo as pernas para andar, ora fechando. Provavelmente consequência da artrite/artrose. O mais notável de seu andar era a forma como a perna esquerda traseira não dobrava, assemelhando-se a uma perna de pau.

Pois bem, o highlander da garagem não dobrava a pata esquerda traseira, era bravo e tinha olho de vidro.

Eis que observa-se uma movimentação. Um pedaço de osso/cartilagem de frango de domingo surge de dentro da casa rumo a garagem.
Provavelmente o dono sussurrou.

"Se matem, coma quem sobreviver".

O tempo parou, os latidos cederam. Sabemos, a lei é a do mais rápido. Pegou comeu.

RUF! Ouviu-se. Era o cão pirata.
(silêncio respeitoso)

Abriram caminho e o cão pirata seguiu sua incursão rumo ao osso, como quem dançasse "Beat it - Michael Jackson". Observado por todos, confiante em sua lentidão, cheirou o chão até o X do tesouro e o agarrou com suas verdes gengivas.

Agora não sei se foi sonho ou se aconteceu.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Cachaça, pinga, cânha, aguardente...


“Quixiramobim, 14 de fevereiro de 1976

Ilustríssimo Senhor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira,

Venho humildemente por meio desta deixar meu parecer antagônico ao vosso em pequeno mas importante item de vosso labor. Batizado como Leopoldo Costa Filho (Costinha), 67, sou membro do Corpo Quixiramobense de Truco, do Clube de Bocha Reginaldo Rossi & Amigos e proprietário do Bar do Torresmo.
Reconheço admirado e respeitosamente vosso pertencimento a Academia Brasileira de Letras, a Academia Brasileira de Filologia, a Academia de Ciências de Lisboa e a Hispanic Society of América, mas acredito ter observado um equívoco em vossa concepção do significado da palavra “comemorar”.

Co.me.mo.rar v.t.d 1. Trazer à memória; fazer recordar; lembrar. 2. Festejar, celebrar. [C.: 1 (ó)] § co.me.mo.ra.ção sf.; co.me.mo.rá.vel adj2g.; co.me.mo.ra.ti.vo adj.

Hoje faz 42 anos que observo as relações humanas num contexto boêmio, tendo em vista que há 42 anos finquei meu corpo e alma na construção deste fantástico ambiente de bebidas e torresmos para a população de Quixiramobim. Desta forma, afirmo com olhar firme e dedo indicador aos céus que Co.me.mo.rar não é um termo que se refere somente a “fazer recordar, lembrar”, mas também, “tentativa imediatista de perda parcial ou total da memória, de lembranças de acontecimentos específicos, ou de sentimentos desconexos inerentes à alma humana através do entorpecimento descontrolado pela “marvada”.
Falo também por mim.

Agradecido pela atenção,

Costinha”
Acervo: Pinacoteca, São Paulo.

Comemoro pois:
Hoje vejo minha casa afundando como vaca em atolêro (tendo em vista que, devido vazamento inviZivel, Sá e Guarabira tinham razão, e o sertão virou mar sob meus pés);
Pois o mar tem preço, e a Sabesp tá cobrando;
Porque chegou a Sexta-feira Santa das formigas de casa, e eu não tenho mais atum;
Porque eu vou começar o TCC;
Porque eu não sei sobre o que vou escrever no TCC;
Porque o porteiro continua abordando;
Porque a velha continua reclamando;
Porque o Dedé voltou a trabalhar com o Didi.
Desce, marvada!