sábado, 30 de agosto de 2008

Visitas do Reino Animal

As ruas do Brasil estão cheias de animais perdidos e carentes de atenção. Não sou lá um santo, mas sempre que posso, alimento um ou outro cachorro que me segue até em casa. Gato, não. Taí mais um trauma.
Enfim, dos cachorros, depois da desaparecida Madalena e do falecido Flecha-Negra (conhecido pelo resto da faculdade como Robinho, que Deus o tenha), minha predileta é a ainda sobrevivente Matilda, que mais parece uma flanelinha de posto de gasolina, daqueles desfiados e beges. Magricela, a Matilda sempre faz visitas com aquela cara de tonta, abanando o rabo pra ganhar um pedaço de mortadela, ossos de frango ou carne. Pão não. Pão ela cheira, lambe e cospe (esnobe desgraçada).

Pois bem, era ainda dia quando voltando da biblioteca (sic) observei em frente a minha humilde casa, estático e com ar de superioridade, um pombo bem do diferente.
Pensei ser um pombo pois como todos sabem, Franca do Imperador é também conhecida como a Veneza brasileira, onde a população de pombos é superior a de formigas, baratas e grilos - juntos. Felizes, os pombos curtem sua rotina na praça central se multiplicando por Progressão Geométrica e realizando escambo de hambúrgueres e churros inteiros de pobres crianças por piolhos e carrapatos. "É uma boa troca, pipoca é coisa de quem pensa pequeno", dizem.
Desta forma, preparei um idoso e vergonhoso "Xô!" para me livrar desta ave profana e entrar para continuar estudando (sic) tranquilamente em meu quarto.
Quando me aproximei da ave, finalmente percebi que não se tratava de uma das aves marginais do centro. Cinza, pequenina e gordinha, era inacreditavelmente uma codorna.
Cabe a mim me defender previamente dos injustos julgamentos de mentiroso, bêbado ou esquizofrênico. Era, certamente, uma codorna.
De olhar terno e acolhedor, a pobre gordinha havia pousado pacificamente sua existência defronte meu portão, e coube a mim naturalmente transformar meu desgostoso "Xô" em estalos de dedos e sorridentes "pssss... pssss... psssss...".

(Não, eu não moro em uma fazenda, roça ou chácara. Eu moro no centro de Franca, interior mágico do estado de São Paulo. Onde histórias estranhas acontecem com frequência).

Quase como uma empalhada-viva, a solitária codorninha manteve seu olhar curioso enquanto a levantava do chão. Entrei. Atravessei a casa relativamente feliz. Não haveria problema algum com um bicho de estimação como aquele. Poderíamos finalmente cuidar de um animal que não comesse e cagasse por quilo. Aliás, ela daria luz a ovos. Haveria uma família de codorninhas. Poderíamos fazer do quartinho do fundo um poleiro. Minha mente não cessava. Planejei muitas coisas.

Chamaria-se Morgana.

Pousei-a em seu novo habitat. Um quintal grande, com direito a quartinho dos fundos (ironicamente chamado "Caverna do Dragão". Aliás, sabiam que o episódio final de Caverna do Drag...), uma lavanderia, um banheiro e alqueires e alqueires codórnicos para pura diversão. Um verdadeiro play center. Para meu orgulho, Morgana já desbravava heroicamente a fenda existente entre a parede e o tanquinho.
Detalhes a parte, o que comeria Morgana?
"Calma aí, Morgana, que eu já volto."


No anseio de alimentá-la logo, pois só Deus sabe há quanto estaria implorando por cuidados, saí à procura de um especialista. O Oráculo, o pagé, o ermitão, a fonte da sabedoria e da plenitude espiritual: Seu Zé, o ancião proprietário do bar Santa Rita (já citado em Sutiã 44). Coloquei-o a par rapidamente da situação, e com muita firmeza o highlander de óculos me explicou que codornas comeriam alpiste, mas que um fandangos seria útil, por hora.
Fandangos na mão, agradeci e segui rapidamente rumo a minha casa, apenas um quarteirão do bar.

"Morgana! Morgana! Psssss... psssss... psssssss..."
"Ué..."
Minha mais nova amiga havia sumido. Procurei por toda parte, até o momento em que uma testemunha depôs contra Morgana:
"Era um pombo? Eu vi um saindo da cozinha, passando pela sala e saindo pela garagem. E esse fandangos aí?"

Raphael, um dos outros três que dividem o fardo da residência comigo, paulistano nato que não sabe a diferença de uma galinha e um pato, havia visto da porta de seu quarto um "pombo" passando por seus pés e saindo pela porta da frente. Porta que estava entreaberta desde o momento que segui para a compra do fandangos.
o.
"Cacete. Você viu e não fez nada?"
"O quê? Era pra matar o pombo?"
"Era uma codorna. Droga."
"Dá um poco de fandangos preu."

Era uma cigana. Havia escolhido a liberdade a se trancafiar num quintal com filhotes diversos e uma rotina de fandangos. Passei a tarde imaginando o que estaria fazendo Morgana. Por que havia fugido. E se havia topado com Matilda em algum lugar, tendo em vista que a magricela não apareceu na porta de casa pra comer por uns dois dias.

sábado, 23 de agosto de 2008

A alegria das estradas


O ranger de dentes é inevitável. Apreensão. Cabeça baixa. "Lá vou eu de novo".

Ptishhhhhhhhh!

Abrem-se os portões, você está em um ônibus.

Inóspito, anecúmeno, intragável. Ambiente de integração forçada, em que a tensão começa antes de entrar e só acaba depois de sair. Onde a hostilidade impera em cada ato, em cada olhar, em cada suspiro longo e arrependido.

"Não senta aqui. Não senta aqui. Ele tah vindo...Senta aí na frente. Putaquiopariu! olha o tanto de mala. Devia ter pego a poltrona 29."
- Boa tarde, acho que meu lugar é aqui do seu lado.
(Acha? então vê direito.)
-Boa tarde.

Ambiente em que a democracia dos odores é harmoniosa. Uma mistura única de entorpecentes oriundos do banheiro e dos intestinos dos nobres passageiros. Um bafo quente e denso que arromba os pulmões e só se dissipa quando se mete a cara na rinite (quero dizer, poltrona) ou abre-se a janela. Arrrrr! Arrrrrrrrrrrrrr!
- Você pode fechar a janela por favor?
Merda.

Os celulares viram mega-fones.
- Alô, Milena? chama o Adenor. ADENOR! MOLEQUE, SAFADO! ahã...ahã...isso, chego 8:00hs. NÃÃÃO ACREDITO! MÁQUINA DE COSTURA? ABAJUR VERDE?(risadas muito altas) GINÁSTICA OLÍMPICA? VIROSE? ESCAPISMO? O CLAUDIÃO É FÓÓÓDA MESMO!

Famílias felizes.
"Safada! eu furucê!"
"quêsse garfo? cê num é homem".

Bêbados felizes.
"o Maluf voltou como cachooorro, todo mundo vol-ta-rá. Amém! ele morreu? Cara! você tem um trocadim? MOTORISTA!PODE CORRER! CORINTHIANO NÃO TEM MEDO DE MORRER!"

Tarados infelizes.
"Oooi".

Passa o tempo. Acostuma-se com o cheiro. Acalmam-se os ânimos. Paz.

E é nesse momento em que choram os bebês.

Reclinam a poltrona da frente como um guindaste sobre suas pernas. Os vidros embaçam de baba gasosa. O choro causa pânico. A maioria finge dormir. Os que conseguem, roncam.
Desce, dramin. Desce.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

63 dias para a fogueira de São João

Fogueira de São João, entrega de TCC, dá no mesmo.
O tempo é relativo. O caminho é longo. O trabalho é difícil e a recompensa é pouca.
Já dizia Herman Hesse:

"Pau que nasce torto, nunca se endireita (...)".




Prepara a lenha.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Traumas

Todos possuem algum tipo de trauma. São experiências cruelmente marcantes de suas vidas concebidas a partir de contatos desagradáveis com tipos diferentes de animais, alimentos, meios de transporte, lugares, pessoas, estudos, relacionamentos, etc. Existem infinitas formas de se tornar alguém traumatizado.
No meu caso, não posso ver um ganso sem recordar das férias de julho de 1991. Ah! 1991. Esta nobre ave, responsável pelo embelezamento de lagos e lagoas, não passa na verdade de um ser rabugento e violento. Vivendo em bandos, como hienas, utilizam seus “qüés” dissonantes e bico duro para aterrorizar a vida de pobres crianças que se aproximam de seu habitat. Com apenas 5 anos de idade, aprendi que para pescar em algum lugar que tenha gansos por perto, é necessário ter bagos. A barra é pesada. Eles não têm medo de pedrinhas nem varas de bambu.
Aprendi que não adianta correr desesperadamente, pois os mensageiros do inferno esticam o pescoção pra frente de forma a lhe alcançar na hora de bicar.
Aprendi que calça jeans protege das bicadas melhor que bermuda.
Aprendi que chorar na frente de adultos por medo de ganso é motivo para ser ridicularizado. Me-do.


Dentre tantas outras experiências traumáticas, como as conseqüências de pressionar somente o freio da frente de uma bicicleta em alta velocidade, tenho uma má lembrança que nomeei “Trauma Migratório”. Um trauma adquirido derredor o Ensino Fundamental, Guaratinguetá.
Minha sala era unida aos olhos de quem a observava de fora, mas multifásica para quem a via de dentro, como o leite. Sem julgamentos específicos, havia um sistema de castas que dividia por “estranheza” as crianças. Preestabelecendo seus lugares para sentar e as pessoas com quem poderiam se comunicar. Esse sistema de castas era baseado no “Método Macauly Calkin”: quanto mais parecido com o loirinho do “Esqueceram de mim”, mais normal o garoto seria considerado, possuiria mais liberdade para dialogar com as garotas, seria convidado para todas festinhas de aniversário e teria livre acesso às carteiras da classe. Os diferentes logicamente, receberiam tratamento diferente. O gordinho da sala, o japonês, o Zé Preto (inoxidável Zé), o garoto que tinha três metros de altura com apenas 10 anos e eu, o narigudo boliviano/turco/indiano/norte rio grandense recebíamos o tratamento baseado no “Método Cirilo”: aqueles que nunca conquistariam uma “Maria Joaquina”, que pereceriam no fundo da classe e que não seriam convidados para todas as festinhas. Essa divisão era intensificada quando notado que de alguma forma, os já excluídos eram ruins no futebol, tinham bigodinhos, aparelho e/ ou espinhas. O “Trauma Migratório”, portanto, nada mais é que uma recordação de um tratamento xenófobo no âmbito escolar.

Nós não éramos imigrantes ilegais, nós éramos "não-legais".
Porém, unidos o grupo de gremlins do fundão arranjavam o que fazer. Adeptos de Star Wars, aulas de ciência, bandas que não "P.O. Box", esportes que usam as mãos e Coleção Vagalume, às vezes aproveitávamos oportunidades para alcançar o êxtase vingativo, como nas partidas de “queimada” das aulas de Educação física, em que mirávamos nas cabeças de nossos opressores.
Aprendemos muito com isso. Desenvolvemos um apresso por coadjuvantes, como Zacarias, Patolino e o Homem de Lata. Percebemos a beleza no interior das pessoas, e não somente nos cachinhos e nos narizes pequenos. Constatamos que algumas pessoas superam essas diferenças, e criam laços duradouros de amizade.
E descobrimos que se a bola acerta o nariz, dói mais.