quarta-feira, 28 de outubro de 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O roubo do Silêncio


O silêncio que machuca e anseia, que desliza e precede acordes ou notas em stacatto é também música que alimenta de forma vazia a alma como lapsos de vácuo no peito.

São pausas respeitáveis, que precisam ser ouvidas sem o corpo, em paz, pelo tempo que for preciso. Reafirmo, o silêncio também é música.

Desta forma, não se deve utilizar notas desnecessárias, acidentes musicais que nos reduzem à angústia do arrependimento.

O silêncio é quem me remete a mim. Um salto despercebido, de olhos fechados, no mais profundo reflexo de mim mesmo.

Pois bem, dito isso, vou direto ao assunto:

Fui roubado.

Quem dera fosse uma ou duas vezes, mas foram várias.

Uma senhorita respeitável, por exemplo, passou rapidamente por minha vida e me roubou Chico Buarque.

Outra, todas bandas inglesas.

A mais bonita me levou o samba.

Estas músicas deixaram de ser acordes e letras inspiradoras. Tornaram-se lembranças, momentos, datas. Não escuto mais nenhuma destas melodias de forma desvencilhada à estas larápias. O vínculo provavelmente será eterno.

Desde então, escuto Sertanejo. Este eu sei que ninguém quer levar.

O fato é que apesar de tudo já citado, não é o roubo do que ouço que me aflige. A aflição reside na existência de uma morena, não a mais bonita nem a mais sorridente, que me levou o bendito silêncio.

Quando o nada atinge meus ouvidos a morena invade meus pensamentos.

Meu Deus, preciso parar de escutar sertanejo urgente.

domingo, 26 de abril de 2009

Heróis e Heroínas II

Meredith Allen

Bem me lembro do homem-cão.

Aquele não era dos mais estáveis.

Tal qual um vampiro ou uma pulga, vivia sob a condição devastante de subjugar o próximo para sua própria sobrevivencia. Diferenciava-se por ser um tanto quanto dócil e de olhar angelical.

Me lembro de como aquele defendia a utilização da palavra “sim” de outras bocas quando sempre recitava “nãos” encharcados de graças e risos. Confessou outrora que era como jogar uma rosa numa tigela de bacon frito.

Não entendi.

Enfim, miserável homem-cão, fazia-se de desentendido quando lhe perguntavam sobre o que significaria “gostar”. Era um aspirante a desocupado que assoviava valsas a noite para não ter de assoviar um tango sozinho de manhã. E se lhe perguntassem o que estava pensando...bem, ele responderia com outras perguntas. Em lá menor (de preferencia), dizia.

Naquelas manhãs de tango, sentia-se imponente, e assim como Bennet, entendia o silencio como elogios, os elogios como elogios e as críticas como silencio.

Desde aquela vez, do famigerado bacon, não o vi mais.

Não o vi por muito tempo.

Quem diria que o encontraria numa manhã nublada parado em uma banca de jornal, lendo aleatoriamente um daqueles livros de coleções baratas.

Ao colocar o papo em dia, o percebi diferente. Para minha surpresa, não assoviava.

Não hesitei quando vi oportunidade de lhe perguntar o que quis dizer com a história do bacon. Me respondeu:

“Gostar deve ser a melhor forma de ter. Ter deve ser a pior maneira de gostar.”

Daí que eu não entendi nada mesmo.

Descobertas

Coke

Bom dia pequenina! Posso ajudar?

Bom dia! Eu gostaria de quatro saquinhos de jujuba e uma paçoquita.


Claro, alg...


Não! Dois sacos de jujuba do grande ao invés dos quatro pequenos...pode ser?


Tudo bem, algo mais?


Não, só isso. Se eu comprar mais fica caro, né?


Uma paçoquita, quatro sacos de..


Dois.


Isso, mais dois sacos de jujuba. Hmmm...São três reais e cinquenta centavos.


Diacho! Quanto é a jujuba?


Essa da grande custa um e cinquenta o saco.


Hum...acho que eu não vou ter dinheiro.


(...)


(...)


(...)


Tem desconto?


Quanto você tem?


Eu tenho...


(contagem de moedas)


Espera aí, tem mais nesse bolso.


Tudo bem, eu espero.


(...)


Oitenta centavos.


Oitenta centavos? Olha, a paçoquita custa cinquenta centavos, eu posso fazer duas pra você
pelos oitenta centavos.


Tá, mas daí eu posso levar as jujubas também?


Não...as jujubas são um e cinquenta o saco.


Tá bom tia. Mas é que eu prefiro mais as jujubas que a paçoquita.


Entendi. Bem, você pode pedir mais dinheiro pra sua mamãe e depois voltar aqui.

Na verdade, não posso.


(apreensão da vendedora)


Então...vamos fazer assim. O saco de jujubas pequeno é um real. Você leva um pelos oitenta
centavos, pode ser?


É que eu preciso de dois.


Mas voc
ê não tem dinheiro para os dois.

Não, né
?

(...)

terça-feira, 14 de abril de 2009

A Máscara dos Urubus e o Timbre Seletivo


Recentemente ouvi uma intrigante história sobre um ditador.

Ouvi de um velho senhor que se assemelhava a um maracujá passado, morador da Rua das Pedras.
O contador de histórias sentava todos os dias vagarosamente em uma velha cadeira de vime, defronte às casas também velhas de sua rua. Era magro, de olhos fundos castigados pela luz e pelo tempo.
Contrastava suas roupas sujas e antigas com um chapéu novo.
De sobrancelhas e rugas levemente ascendidas em seu rosto, passava o tempo contando palavras entorpecidas pelo tabaco de seu cachimbo, palavras mestiças de um homem ora vivaz, ora entregue.
Bruxo pras crianças, amargura para os adultos, aquele velho me ilustrou um quadro conciso daquele que muitos não gostariam de ser. Pois era sozinho.

- Bem-te-vis...- disse.
- São urubus mascarados de amarelo, sabe
? Ironicamente mal-vistos entre os pássaros.

Tragava.

Não constróem ninhos.
.. Bicam os ovos e matam as crias de outros, roubam suas casas...
Isso voce não sabia, imagino...

Bem, pelo que me lembro foi mais ou menos aí que começou a história do ditador. Mas suas histórias eram como um solo de acordeom numa bossa. O timbre seleciona o que quer ouvir...ou o que não consegue deixar de ouvir. Dessa vez só deu acordeom.

A história do ditador realmente era intrigante, mas não consegui parar de pensar no mardito bem-te-vi.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Curtas



VIKINGS!

Eram muitos.

Estavam por toda parte.

Machados em mãos, adagas a postos.
Preparados para matar.


Percorriam pela floresta o esquilo que diziam voar.

- Lombada! Lombada! Lombada!

- Uooooopa...

CORTA!
____________________________________________________________

- Corajosos participantes, vocês sabem que logo saberemos e julgaremos TODOS seus pecados?
- SIM!
- Que a falta de graça e assunto neste ambiente os desqualificará e acionará as comportas que atirarão seus corpos no fosso dos crocodilos?
-SIM!
- Senhora...sim, a senhora. Pare de chorar. Senhora...Chico, TIRA ESSA SENHORA DAQUI!
Perfeito! Amigos Telespectadores, iniciaremos agora mais uma vez... _____________________________________________________________

- Ele está louco! Segurem esse homem!
- Mas senhor, ele tem uma foice!
- Devolva-lhe as pitangas, então...
- As pitangas NUUUNCA!
- OTTO, AS PITANGAS!
- NÃÃÃÃÃÃO!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Heróis e Heroínas I


Desenho em caderno moleskine em http://mattiasa.blogspot.com/

Bem me lembro do homem planta. Figura diferenciada no meio social, tendo em vista que era…verde.

De um universo infinito de homens planta, foi o que decidiu seguir sua vida num ambiente dito anecúmeno: o concreto.
Sentia-se um símbolo de resistência.

«Vive la résistance!»

Mas pouco a pouco deixou de caminhar infalivelmente e passou a rastejar. As calçadas eram secas. Assim como a areia.

Assim como as pessoas.

Moribundo, adentrou ofegante um escritório qualquer e trancafiou-se numa das salas. Meia luz e ar-condicionado. Com oxigênio escasso, preparou-se para o pior.

Amaldiçoou o espirito cigano.

Mal sabia que em muitos escritórios daquela cidade estaria sua salvação. Teve a sorte de equilibrar sua balança vital com a quantidade de esterco aos seus pés.

“Vive la mierd!”

Sobreviveu, mas ficou amarelo.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sábado de Manhã,

Ela falava comigo, mas eu não a via. Neblina demais.

Apesar do ambiente ser um tanto quanto nebuloso, soube que sob meus pés estavam pedras arredondadas e lisas, como as que encontramos às margens de riachos. Pelo menos isso eu sabia, estava descalço. As pedras eram geladas, mas não chegavam a incomodar como me afetava o fato de não saber de onde vinha a voz. Parecia outro idioma.

Apalpei o ar por muito tempo, caminhando cada vez mais próximo das palavras que me intrigavam. Meus pés estavam mais gelados.
Não percebi o momento em que me desesperei, mas logo me vi gritando por ela. Para minha surpresa, gritava em francês

- Oui! Oui! Le abajour Jacques Cousteau maison t’aime le cuisine en le monde diplomatique!

Nunca falei francês. E sabendo que não havia falado nada com nada, aquietei.

O silêncio foi de dar vácuo no tímpano. Durou até a voz voltar.
Ela cantava.
Quando prestei atenção atentamente na música, o universo começou a sumir na neblina, tudo foi sumindo, menos a voz.
Abri os olhos. Estava deitado em minha cama, e alguém havia posto um bendito CD da Carla Bruni pra tocar em meu rádio.


Desliguei o rádio, cobri meus pés e voltei a dormir.

Preciso estudar francês.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Cartas da Montanha Encantada


“Consuelo, sinto sua falta.

Penso não ter refletido tão bem antes de fugir de nossa cidade. Esta montanha gélida e solitária vem rasgando minha alma sem piedade.
Minha barba cresceu o suficiente para vê-la sobre meu peito, as solas de meus pés mais parecem um casco do que aquelas que tocavam o carpete bege de nosso apartamento.
Não sei ao certo há quanto tempo estou aqui, não tive a paciência de Robson Crusoé ou Tom Hanks para marcar árvores ou cavernas dia após dia. Mas sei que foi o suficiente para sentir falta da presença humana e começar a falar sozinho. Tenho longos monólogos com seres vivos e inanimados, como insetos e o monóxido de carbono. Canto todos os dias. Na verdade, acho que foi assim que os lobos me encontraram.
Esse foi um dia difícil, pois após não aceitarem minhas framboesas, os animais me atacaram ferozmente quando entoei Sandra Rosa Madalena, nossa música.
Ah!
Durante a longa e cansativa fuga, lembrei de você. Corri dos lobos com nossa música na cabeça. Talvez tenha assoviado o refrão sem querer.
Seu cabelo, seu cheiro, seus lábios, lembrei da forma como sempre foi comigo. Bem...
Sabe, o olhar furioso e faminto dos lobos refez um pouco de sua imagem incompreensiva e possessiva também. Na verdade, um deles parecia bastante com você, estava aparentemente acima do peso... rosnava como você quando eu puxava um pouco o nosso cobertor para meu lado da cama ou quando pensava em escolher o canal da tv...

Consuelo, acabei de lembrar o porquê de ter fugido.

Espero que esteja tudo bem.

Hans”

Messias, o matador de Dragões

Corriam, caíam e se esfregavam na lama devido grandes aventuras distintas, sob identidades ora heróicas ora super-heróicas. Aparentemente, duvidavam da gravidade. Cobertos por band-aids sujos, riam e gesticulavam transformando cachorros em dragões, gravetos em espadas e árvores em castelos. Eram cavaleiros voadores com pedras-granada, além dos feitiços que também poderiam fazer sobre tudo e todos.
- Pedra GRANAAADA!

Pobres cachorros.

Sob o olhar desatento de suas avós, os dois bambinos cessaram a ação militar sobre a idade média e sentaram no gramado para coçar as feridas e “tirar as casquinhas” do joelho. Até que o mais novo revelou:

- Eu sou o Messias.

- Quê?

- Messias, eu sou o Messias.

- Pensei que seu nome fosse João.

- João Messias.

E foram à batalha ao avistar mais um vira-lata.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Cotidiano IV


Quem diria que me tornaria, depois de arqueólogo de jardim e astronauta de telhado, o arqueiro de um exército. 

- Não pode chorar?
- Não.

Longe dos ossos de frango sujos de terra e da gravidade diferenciada, fecho os olhos pois eles ardem. Fecho e sonho com os sonhos que já tive, os mesmos que foram violentados pelo que não compreendo. 
Caso também não entenda, isso quer dizer que o abismo que vejo de cima não é tão profundo.
E aqueles que me observam esperando o salto, talvez deixem escapar tantos sorrisos que iluminem a noite.

Mas é dia.

''Olhe, mas não toque. Toque, mas não prove. Prove, mas não engula.''

(...)

Me deparo com o momento em que perco minha flecha de vista, e abro os olhos para ver o nada na escuridão do dia.

E mais uma vez, caminho cego pela multidão.