quinta-feira, 19 de março de 2009

Sábado de Manhã,

Ela falava comigo, mas eu não a via. Neblina demais.

Apesar do ambiente ser um tanto quanto nebuloso, soube que sob meus pés estavam pedras arredondadas e lisas, como as que encontramos às margens de riachos. Pelo menos isso eu sabia, estava descalço. As pedras eram geladas, mas não chegavam a incomodar como me afetava o fato de não saber de onde vinha a voz. Parecia outro idioma.

Apalpei o ar por muito tempo, caminhando cada vez mais próximo das palavras que me intrigavam. Meus pés estavam mais gelados.
Não percebi o momento em que me desesperei, mas logo me vi gritando por ela. Para minha surpresa, gritava em francês

- Oui! Oui! Le abajour Jacques Cousteau maison t’aime le cuisine en le monde diplomatique!

Nunca falei francês. E sabendo que não havia falado nada com nada, aquietei.

O silêncio foi de dar vácuo no tímpano. Durou até a voz voltar.
Ela cantava.
Quando prestei atenção atentamente na música, o universo começou a sumir na neblina, tudo foi sumindo, menos a voz.
Abri os olhos. Estava deitado em minha cama, e alguém havia posto um bendito CD da Carla Bruni pra tocar em meu rádio.


Desliguei o rádio, cobri meus pés e voltei a dormir.

Preciso estudar francês.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Cartas da Montanha Encantada


“Consuelo, sinto sua falta.

Penso não ter refletido tão bem antes de fugir de nossa cidade. Esta montanha gélida e solitária vem rasgando minha alma sem piedade.
Minha barba cresceu o suficiente para vê-la sobre meu peito, as solas de meus pés mais parecem um casco do que aquelas que tocavam o carpete bege de nosso apartamento.
Não sei ao certo há quanto tempo estou aqui, não tive a paciência de Robson Crusoé ou Tom Hanks para marcar árvores ou cavernas dia após dia. Mas sei que foi o suficiente para sentir falta da presença humana e começar a falar sozinho. Tenho longos monólogos com seres vivos e inanimados, como insetos e o monóxido de carbono. Canto todos os dias. Na verdade, acho que foi assim que os lobos me encontraram.
Esse foi um dia difícil, pois após não aceitarem minhas framboesas, os animais me atacaram ferozmente quando entoei Sandra Rosa Madalena, nossa música.
Ah!
Durante a longa e cansativa fuga, lembrei de você. Corri dos lobos com nossa música na cabeça. Talvez tenha assoviado o refrão sem querer.
Seu cabelo, seu cheiro, seus lábios, lembrei da forma como sempre foi comigo. Bem...
Sabe, o olhar furioso e faminto dos lobos refez um pouco de sua imagem incompreensiva e possessiva também. Na verdade, um deles parecia bastante com você, estava aparentemente acima do peso... rosnava como você quando eu puxava um pouco o nosso cobertor para meu lado da cama ou quando pensava em escolher o canal da tv...

Consuelo, acabei de lembrar o porquê de ter fugido.

Espero que esteja tudo bem.

Hans”

Messias, o matador de Dragões

Corriam, caíam e se esfregavam na lama devido grandes aventuras distintas, sob identidades ora heróicas ora super-heróicas. Aparentemente, duvidavam da gravidade. Cobertos por band-aids sujos, riam e gesticulavam transformando cachorros em dragões, gravetos em espadas e árvores em castelos. Eram cavaleiros voadores com pedras-granada, além dos feitiços que também poderiam fazer sobre tudo e todos.
- Pedra GRANAAADA!

Pobres cachorros.

Sob o olhar desatento de suas avós, os dois bambinos cessaram a ação militar sobre a idade média e sentaram no gramado para coçar as feridas e “tirar as casquinhas” do joelho. Até que o mais novo revelou:

- Eu sou o Messias.

- Quê?

- Messias, eu sou o Messias.

- Pensei que seu nome fosse João.

- João Messias.

E foram à batalha ao avistar mais um vira-lata.