domingo, 26 de abril de 2009

Heróis e Heroínas II

Meredith Allen

Bem me lembro do homem-cão.

Aquele não era dos mais estáveis.

Tal qual um vampiro ou uma pulga, vivia sob a condição devastante de subjugar o próximo para sua própria sobrevivencia. Diferenciava-se por ser um tanto quanto dócil e de olhar angelical.

Me lembro de como aquele defendia a utilização da palavra “sim” de outras bocas quando sempre recitava “nãos” encharcados de graças e risos. Confessou outrora que era como jogar uma rosa numa tigela de bacon frito.

Não entendi.

Enfim, miserável homem-cão, fazia-se de desentendido quando lhe perguntavam sobre o que significaria “gostar”. Era um aspirante a desocupado que assoviava valsas a noite para não ter de assoviar um tango sozinho de manhã. E se lhe perguntassem o que estava pensando...bem, ele responderia com outras perguntas. Em lá menor (de preferencia), dizia.

Naquelas manhãs de tango, sentia-se imponente, e assim como Bennet, entendia o silencio como elogios, os elogios como elogios e as críticas como silencio.

Desde aquela vez, do famigerado bacon, não o vi mais.

Não o vi por muito tempo.

Quem diria que o encontraria numa manhã nublada parado em uma banca de jornal, lendo aleatoriamente um daqueles livros de coleções baratas.

Ao colocar o papo em dia, o percebi diferente. Para minha surpresa, não assoviava.

Não hesitei quando vi oportunidade de lhe perguntar o que quis dizer com a história do bacon. Me respondeu:

“Gostar deve ser a melhor forma de ter. Ter deve ser a pior maneira de gostar.”

Daí que eu não entendi nada mesmo.

Descobertas

Coke

Bom dia pequenina! Posso ajudar?

Bom dia! Eu gostaria de quatro saquinhos de jujuba e uma paçoquita.


Claro, alg...


Não! Dois sacos de jujuba do grande ao invés dos quatro pequenos...pode ser?


Tudo bem, algo mais?


Não, só isso. Se eu comprar mais fica caro, né?


Uma paçoquita, quatro sacos de..


Dois.


Isso, mais dois sacos de jujuba. Hmmm...São três reais e cinquenta centavos.


Diacho! Quanto é a jujuba?


Essa da grande custa um e cinquenta o saco.


Hum...acho que eu não vou ter dinheiro.


(...)


(...)


(...)


Tem desconto?


Quanto você tem?


Eu tenho...


(contagem de moedas)


Espera aí, tem mais nesse bolso.


Tudo bem, eu espero.


(...)


Oitenta centavos.


Oitenta centavos? Olha, a paçoquita custa cinquenta centavos, eu posso fazer duas pra você
pelos oitenta centavos.


Tá, mas daí eu posso levar as jujubas também?


Não...as jujubas são um e cinquenta o saco.


Tá bom tia. Mas é que eu prefiro mais as jujubas que a paçoquita.


Entendi. Bem, você pode pedir mais dinheiro pra sua mamãe e depois voltar aqui.

Na verdade, não posso.


(apreensão da vendedora)


Então...vamos fazer assim. O saco de jujubas pequeno é um real. Você leva um pelos oitenta
centavos, pode ser?


É que eu preciso de dois.


Mas voc
ê não tem dinheiro para os dois.

Não, né
?

(...)

terça-feira, 14 de abril de 2009

A Máscara dos Urubus e o Timbre Seletivo


Recentemente ouvi uma intrigante história sobre um ditador.

Ouvi de um velho senhor que se assemelhava a um maracujá passado, morador da Rua das Pedras.
O contador de histórias sentava todos os dias vagarosamente em uma velha cadeira de vime, defronte às casas também velhas de sua rua. Era magro, de olhos fundos castigados pela luz e pelo tempo.
Contrastava suas roupas sujas e antigas com um chapéu novo.
De sobrancelhas e rugas levemente ascendidas em seu rosto, passava o tempo contando palavras entorpecidas pelo tabaco de seu cachimbo, palavras mestiças de um homem ora vivaz, ora entregue.
Bruxo pras crianças, amargura para os adultos, aquele velho me ilustrou um quadro conciso daquele que muitos não gostariam de ser. Pois era sozinho.

- Bem-te-vis...- disse.
- São urubus mascarados de amarelo, sabe
? Ironicamente mal-vistos entre os pássaros.

Tragava.

Não constróem ninhos.
.. Bicam os ovos e matam as crias de outros, roubam suas casas...
Isso voce não sabia, imagino...

Bem, pelo que me lembro foi mais ou menos aí que começou a história do ditador. Mas suas histórias eram como um solo de acordeom numa bossa. O timbre seleciona o que quer ouvir...ou o que não consegue deixar de ouvir. Dessa vez só deu acordeom.

A história do ditador realmente era intrigante, mas não consegui parar de pensar no mardito bem-te-vi.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Curtas



VIKINGS!

Eram muitos.

Estavam por toda parte.

Machados em mãos, adagas a postos.
Preparados para matar.


Percorriam pela floresta o esquilo que diziam voar.

- Lombada! Lombada! Lombada!

- Uooooopa...

CORTA!
____________________________________________________________

- Corajosos participantes, vocês sabem que logo saberemos e julgaremos TODOS seus pecados?
- SIM!
- Que a falta de graça e assunto neste ambiente os desqualificará e acionará as comportas que atirarão seus corpos no fosso dos crocodilos?
-SIM!
- Senhora...sim, a senhora. Pare de chorar. Senhora...Chico, TIRA ESSA SENHORA DAQUI!
Perfeito! Amigos Telespectadores, iniciaremos agora mais uma vez... _____________________________________________________________

- Ele está louco! Segurem esse homem!
- Mas senhor, ele tem uma foice!
- Devolva-lhe as pitangas, então...
- As pitangas NUUUNCA!
- OTTO, AS PITANGAS!
- NÃÃÃÃÃÃO!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Heróis e Heroínas I


Desenho em caderno moleskine em http://mattiasa.blogspot.com/

Bem me lembro do homem planta. Figura diferenciada no meio social, tendo em vista que era…verde.

De um universo infinito de homens planta, foi o que decidiu seguir sua vida num ambiente dito anecúmeno: o concreto.
Sentia-se um símbolo de resistência.

«Vive la résistance!»

Mas pouco a pouco deixou de caminhar infalivelmente e passou a rastejar. As calçadas eram secas. Assim como a areia.

Assim como as pessoas.

Moribundo, adentrou ofegante um escritório qualquer e trancafiou-se numa das salas. Meia luz e ar-condicionado. Com oxigênio escasso, preparou-se para o pior.

Amaldiçoou o espirito cigano.

Mal sabia que em muitos escritórios daquela cidade estaria sua salvação. Teve a sorte de equilibrar sua balança vital com a quantidade de esterco aos seus pés.

“Vive la mierd!”

Sobreviveu, mas ficou amarelo.